domingo, 7 de maio de 2017

MILTON MARQUES NO JORNAL DE UPANEMA

A primeira edição do Jornal de Upanema, dia 26 de outubro de 2003, publicou um texto produzido pelo doutor Milton Marques de Medeiros, falecido no dia 22 de abril deste ano. Ele recorda fatos do passado e do presente da nossa cidade.

Eis o texto na íntegra:

Upanema de todos os tempos

No início dos anos 50, assumiu o governo do Estado do Rio G. do Norte, o senhor Dix-Sept Rosado. Era praxe, na época, quando um município não oferecia maioria ao governador recém-eleito, logo surgir naquela cidade uma espécie de punição ao seu povo, desferida pelo novo mandatário, quase sempre acobertada pelo rancor e ódio dos conterrâneos frustrados pela recente e mal absolvida derrota eleitoral. Na grande vila de Upanema existia uma única escola primária, Grupo Escolar Prof. Alfredo Simonetti. O educandário, embora pequeno com apenas duas classes de aula, cumpria condignamente sua função de bem formar e educar gerações seguidas. Contribuiu muito para o ensino da terrinha. Quando os estudantes atingiam o quarto ano primário, paravam de estudar. Alguns que dispunham de parentes a distância ou situação financeira favorável, eram deslocados para outras cidades maiores, como Mossoró e Assu, objetivando fazer o quinto ano e a seguir, submetiam-se ao "Exame de Admissão", espécie de vestibular onde poucos eram os aprovados e por conseguinte, continuavam seus cursos ginasial e depois científico.

Pois bem. Naquele ano, Upanema perdeu duas professoras, transferidas para Patu, ficando as crianças sem aulas e sem nenhuma informação de quando o problema seria resolvido. Após vários meses sem aula, o industrial João Melo, residente em Macau, e que tinha em Upanema transações comerciais no mercado de algodão, se sensibilizou sobre o assunto e contratou(pagando do seu bolso), uma professora, dona Neri Gonçalves para ensinar as crianças pobres da cidade em sua própria residência. A classe de aula ficava na classe da frente ou sala de visita de dona Neri. As crianças se distribuíam em torno de uma única mesa grande e se sentavam em tamboretes de madeira sem encosto, dispostas em círculo, tendo como eixo central a palmatória afiada para ser usada na hora precisa, momento da cobrança da impiedosa tabuada que não podia faltar para aqueles que quisessem aprendê-la. Era a metodologia da época. Seu uso não simbolizava castigo ou menosprezo, mas simples ritual pedagógico plenamente aceito por todos, melindres e acusações, até porque todos da turma acertavam  e erravam dando ou recebendo "bolos" nas palmas das mãos sem qualquer sensura. Tudo muito natural. Não havia a visão de ninguém maltratar ninguém. Hoje contemplamos 53 anos de história. Dá gosto comparar e ver quanto evoluímos. Ontem recebi aqui na TCM - TV Cabo Mossoró a visita de um grupo conterrâneo que está heroicamente lançando um jornal escrito em Upanema. Veio apresentado pelo professor José Mário Bezerra. E como gostei em saber que pretendem levar o projeto para edições mensais falando sobre cultura, costumes e conquitas da nossa sociedade upanemense. Bravos jovens. Parabéns. Que Nossa Senhora da Conceição, padroeira de todos nós, lhes abençoem em todos o mesmo entusiasmo por longos anos de aproveitamento e vitórias sucessivas. A Upanema, que um dia ficou sem uma única escola para ensinar seus filhos, deu a volta por cima, e hoje regozija-se em assistir o lançamento de seu primeiro jornal escrito, fruto da coragem e determinação dos novos professores, nossos irmãos, agentes das letras, as mesmas letras que, conforme a história, um dia nos subtraíram e nos negaram. Sinto-me honrado em fazer parte dessa nova história, a história do primeiro Jornal de Upanema. Sucesso.

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