CENTÉSIMO QUINQUAGÉSIMO OITAVO DIA
TEMPO - Nublado pela manhã.
CHUVA - Leve na noite passada.
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "Cheiro também se paga"?
Sempre correndo mundo, Pedro Malasarte passou pela porta de uma hospedaria, donde vinha o cheiro delicioso de um assado. O nome da hospedaria era "Ao Bom Cabrito".
Como seu estômago estava dando horas, nosso herói entrou pela porta dos fundos e foi direto para a cozinha.
No espeto, dourando ao fogo, estava um lindo cabrito recheado, que seria servido daí a pouco ao Conde Carrasco e sua comitiva.
Percebendo que o petisco estava fora do seu alcance, Pedro Malasarte pediu licença e sentou-se ao lado do fogo, onde, além de se aquecer, podia sentir o delicioso cheiro do assado.
Além disso, como trazia na sacola um belo pão que comprara no caminho, sempre podia comê-lo. E foi o que tratou de fazer, molhando os pedacinhos no molho do assado.
Com aquele calorzinho e o cheiro gostoso que lhe entrava pelas narinas, era só fechar os olhos que até parecia estar comendo o próprio cabrito do Conde Carrasco.
E ali ficou, quietinho, até pegar no sono.
Sonhou com banquetes magníficos. Estava sentado à cabeceira de uma grande mesa e trinchava um belo cabrito assado. Depois comeu-o inteirinho, com a maior satisfação.
Enquanto isso, o hospedeiro levava o assado para a mesa, e todos - o Conde Carrasco e sua comitiva - comiam e bebiam à vontade.
Quando ficaram satisfeitos e voltaram os restos para a cozinha, o hospedeiro sacudiu Pedro Malasarte.
- Como é que é? Você fica aí dormindo e não come?
- Muito obrigado, enchi só com o cheiro daquele maravilhoso assado.
- Só com o cheiro? - repetiu o hospedeiro, intrigado.
E saiu da cozinha para acertar suas contas com o Conde Carrasco. Este, porém, na hora de pagar, não foi muito generoso e entregou ao dono da hospedaria menos moedas do que ele esperava. E ai dele se desse um pio para reclamar! O conde, que era muito mau, o deixaria pendurado em uma viga pelo pescoço.
Por isso, engolindo sua decepção, o hospedeiro tratou o conde com muita distinção e acomodou todos da melhor maneira para tirarem a sesta.
Mas de volta à cozinha, achou de descarregar sua raiva contra o pobre Pedro Malasarte.
- Você aí - foi logo dizendo. - Com que então fica nesse calorzinho, enche a barriga com o cheiro do meu assado e pensa que não vai pagar nada com isso?
Pedro Malasarte ficou surpreendido.
- Ora veja - respondeu. - Nunca pensei que se pagasse pelo cheiro da comida. Sempre paguei pela comida, mas pelo cheiro é a primeira vez!
- E o tempero que gastei para fazer o assado chirar tão bem? - redarguiu o hospedeiro, carrancudo.
- Está bem, está bem - concordou Pedro Malasarte, abrindo a sacola.
Tirou uma moeda e perguntou ao hospedeiro se o valor dela era suficiente para pagar pelo cheiro do assado.
- É o bastante - respondeu este.
Então Pedro Malasarte bateu com a moeda sobre a mesa, fazendo-a retinir.
- Ouviu bem que lindo ruído faz esta moeda? - indagou ao hospedeiro.
- Claro que ouvi! - replicou este. - Mas vamos logo com isso. Que é do meu pagamento?
- Não acha que já está muito bem pago? - respondeu Pedro Malasarte, guardando a moeda de novo na sacola.
- Pago? Como é que estou pago se você tornou a guardar a moeda? Está ficando maluco?
- Não é nada disso - retrucou nosso herói. - É que, para pagar pelo cheiro da sua comida, basta o barulho que faz a minha moeda. Estamos quites?
O hospedeiro abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não encontrou nada para dizer, teve de rir.
Naquele dia, Pedro Malasarte comeu e bebeu de graça, pois o dono da hospedaria ficou seu amigo.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
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