ENTRETENDO E SINFORMANDO
Divulga a cultura e a linguagem da cidade, além de produção textual como contos, crônicas, poesias. Comento os fatos, conto histórias. Vez por outra posto notícias.
segunda-feira, 16 de março de 2026
domingo, 15 de março de 2026
REGISTOS DE DOMINGO
SEPTUAGÉSIMO QUARTO DIA
TEMPO - Sol e poucas nuvens.
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "O banquete dos cegos"
Saindo daquela cidade, Pedro Malasarte meteu o pé na estrada. Ia alegre da vida, assobiando, quando foi empurrado por um cavaleiro e caiu de comprido na vala cheia de lama ao lado do caminho. Sentado na lama, furioso com as risadas que ouvia ao seu redor, viu passar uma suntuosa comitiva, no meio da qual ia um alto personagem, provido de uma imensa barriga e todo vestido de vermelho. Sua arrogância não tinha limites.
- Quem é essa figura? - perguntou Pedro Malasarte a um camponês que ia passando.
- Então você não sabe? - retrucou o camponês, de olhos arregalados. - É o novo cardeal! Acaba de chegar de Roma e vai morar na nossa cidade!
Positivamente Pedro Malasarte não simpatizara com o cardeal, que se dava tais ares de importância que parecia o próprio papa. E muito menos com a escolta de soldados mal-encarados que o acompanhava.
Levantando-se, tratou de procurar uma hospedaria onde pudesse tomar um banho e lavar as roupas enlameadas.
Chegou bem na hora o almoço. Havia sobre a mesa uma montanha de comida fumegante. E que quitutes!
É que o cardeal, com sua comitiva, havia parado para almoçar ali.
Nesse momento, um grupo de cegos - pelo menos uns doze - apareceu na porta, pedindo comida.
Os soldados já se preparavam para expulsá-los, quando Pedro Malasarte se intrometeu:
- Deixem em paz os ceguinhos, seus brutos. Eles vão sentar e comer à vontade. E quem paga sou eu.
Disse isto baixinho, já com uma ideia na cabeça. Logo serviram as mais finas iguarias aos ceguinhos, que havia muito tempo não enchiam a barriga tão bem.
Enquanto isso, Pedro Malasarte tomava seu banho e se lavava. Depois sentou-se à mesa dos ceguinhos e comeu com eles, rindo e brincando.
Lá pelas tantas, sacudiu algumas moedas para os cegos ouvirem e lhes disse:
- Bem, meus amigos, vou andando. Deixo aqui em cima da mesa o dinheiro para pagarem o nosso bom hospedeiro.
E saiu de fininho, levando as moedas.
Os cegos, por mais que procurassem, não encontravam o dinheiro. E quando o dono da hospedaria apareceu para cobrar pelos excelentes pratos que lhes havia servido, foi um verdadeiro pandemônio. Cada um dos pobres cegos acusava o vizinho de ter embolsado as moedas e ninguém chegava a uma conclusão. O hospedeiro ficou furioso e já se dispunha a trancá-los todos nos porão até que lhe pagassem quando Pedro Malasarte, que ficara ali por perto, chamou-o a um canto e lhe perguntou:
- Você ficaria satisfeito se o cardeal se encarregasse do pagamento?
- Mas é claro! - exclamou o hospedeiro. - O cardeal é muito rico e homem de palavra, embora não tenha boa cara.
- Pois então fique sossegado - disse Pedro Malasarte. - Onde está o cardeal?
- Subiu para seu quarto, para tirar uma soneca.
Pedro Malasarte foi até o quarto do cardeal e bateu na porta.
- Quem é? - perguntou o gordo cardeal lá de dentro, com voz rouca e a língua enrolando de sono.
- Por favor, Eminência, acuda-nos! - gritou Pedro Malasarte. - O hospedeiro ficou maluco. Está com o diabo no corpo e não há quem o segure! Agora mesmo quer trancafiar no porão um bando de cegos para comê-los vivos!
- Está bem, está bem - respondeu o cardeal. - Mas só me levanto daqui quando acabar de tirar a minha sesta.
Ouvindo isso, Pedro Malasarte foi falar com o hospedeiro.
- Tudo resolvido. O cardeal pagará a conta dos pobres ceguinhos.
Acontece que o hospedeiro ficou meio desconfiado. E mandou a mulher ir falar como cardeal.
- Será que não se pode dormir em paz nesta casa? - trovejou o cardeal quando ela bateu na porta.
- Mas os cegos... - disse a mulher do hospedeiro, timidamente.
- Diga para o seu marido deixar os cegos em paz que depois eu vou acertar contas com ele! - ordenou o cardeal, que só queria dormir, após a lauta refeição.
- Satisfeita com a resposta, a mulher desceu e disse ao hospedeiro o que o cardeal havia dito.
Só então ele deixou os ceguinhos irem embora sossegados e de barriga bem cheia. E com eles foi-se embora Pedro Malasarte, rindo por dentro e pensando:
"Valeu a pena o banho de lama que me deram. Valeu, mesmo! Um farto almoço para mim e doze cegos! E tudo na conta do cardeal!
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
sábado, 14 de março de 2026
SEPTUAGÉSIMO TERCEIRO DIA
QUE PALAVRA!
Renque
Fileira, série. (Aurélio)
Ala, fila, série, fileira, ordem de coisas, linha. (Minidicionário da Língua Portuguesa Silveira Bueno, com etimologia)
Série de pessoas ou objetos dispostos numa mesma linha; ala, fileira, alinhamento: renque de soldados; renque de árvores. (Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras)
Caminhava com cautela, olhando furtivamente para os lados e de vez em quando para trás. À esquerda da alameda um largo quadrilátero de relva descia em suave rampa na direção dum renque de salgueiros. (Noite, de Érico Veríssimo)
sexta-feira, 13 de março de 2026
SEPTUAGÉSIMO SEGUNDO DIA
quinta-feira, 12 de março de 2026
SEPTUAGÉSIMO PRIMEIRO DIA
quarta-feira, 11 de março de 2026
SEPTUAGÉSIMO DIA
TEMPO - Sol forte pela manhã.
LINGUAGEM - Bijuteria
Há pessoas que escrevem de outra maneira, mas a palavra, que é aportuguesada do francês, é escrita assim mesmo.
terça-feira, 10 de março de 2026
SEXAGÉSIMO NONO DIA
segunda-feira, 9 de março de 2026
SEXAGÉSIMO OITAVO DIA
domingo, 8 de março de 2026
REGISTOS DE DOMINGO
SEXAGÉSIMO SÉTIMO DIA
TEMPO - Sol bom pela manhã.
CHUVA DE ONTEM PELA NOITE - 9 mm.
HUMOR
- Mamãe, mamãe, na escola me chamaram de mentiroso!
- Fique quieto, Juninho, você nem vai à escola ainda! (Da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus - Fevereiro/2026)
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "O grande pintor"
Pedro Malasarte já andara por muitos empregos. Entre outras profissões, fora ajudante de uma célebre pintor. E, enquanto o via trabalhar, ia apendendo a misturar as tintas. Acabou sabendo também pintar alguma coisa.
A fome estava grande e não havia outro recurso. Por isso, mal chegou à cidade, despediu-se do alfaiate e do barbeiro e se dirigiu para o palácio do governador. Pretendia pintar-lhe o retrato e ganhar com isso alguns cobres.
Dois soldados barraram-lhe a entrada:
- Aonde pensa que vai com essa cara de faminto? - pergunto um.
- Sim, aqui não entram mendigos! - declarou o outro.
- Os artistas têm entrada livre onde querem - respondeu Pedro Malasarte, com ares de importância.
Naquele tempo, os pintores, músicos, escultores eram muito considerados. Tinham livre acesso às casas mais ricas. Por isso os soldados passaram a tratar nosso herói com melhores modos.
- Quero falar com o governador - disse ele.
Num instante viu-se na sala do governador, diante do qual se desfez em mil mesuras.
- Tenho a honra de vir oferecer a Vossa Alteza os meus préstimos. Quero pintar seu retrato para a posteridade!
O governador ficou muito satisfeito. Tratou de mandar hospedar Pedro Malasarte no melhor quarto do palácio e que lhe servissem comida e dessem roupas novas.
No dia seguinte, muito contente da vida, Pedro Malasarte voltou a sua presença.
- Meu caro pintor, noto que a boa comida lhe caiu bem no estômago e que a boa roupa lhe caiu bem nos ombros. Está com ótima cara e ainda maior disposição, pelo que vejo!
- Tão bem tratado por Vossa Alteza, não poderia ser de outro modo - respondeu Pedro Malasarte.
- Pois quero que comece hoje mesmo o seu trabalho. Está vendo aquela grande parede branca ali no fundo? Pois nela você vai pintar para a imortalidade a mim e a todas as damas, cavalheiros e oficiais da minha corte. Não quero que falte nenhum. Não poupe dinheiro. Pode ficar aqui o tempo que quiser.
- É coisa de trinta dias - replicou o nosso amigo.
- Mas faço uma exigência - prosseguiu o governador. - Quero que todo mundo fique igualzinho como é, feio ou bonito, gordo ou magro, direito ou aleijado. Senão, mando cortar a sua cabeça como se faz com um frango.
Saindo dali, pensativo, ia passando por um corredor quando alguém o puxou pelo braço. Era o Visconde de Boa Vista, que por sinal era caolho:
- Escute aqui, caro pintor - foi logo ameaçando. - Se não me pintar com boa cara e principalmente com os dois olhos no lugar, o que tenho e o que me falta, corto você em pedacinhos!
- E foi-se embora.
Ainda assustado com aquela ameaça, Pedro Malasarte continuou andando pelo corredor. Pretendia comprar as tintas para começar o seu trabalho.
De repente, a mulher do governador, que parecia uma trouxa, de tão gorda, apareceu-lhe na frente, com um sorriso:
- Ó meu amigo pintor - disse ela. - Vou querer aparecer no quadro magrinha como era aos vinte anos. Senão, faço uma intriga e o governador, meu marido, manda você para o fundo do calabouço, onde não faltam ratos para comer gente desobediente!
E desapareceu.
Suando frio com mais aquela ameaça, Pedro Malasarte continuou a andar até dar de cara com o capitão da guarda, um gigante mal encarado e com dois metros de altura. No meio do rosto, o capitão apresentava uma cicatriz medonha, conseguida combatendo na guerra.
- Então você é o famoso pintor que o governador contratou para fazer o nosso retrato, hein? - foi dizendo o capitão, com um sorriso mau. - Pois fique sabendo que se na minha cara houver o menor sinal desta cicatriz, quando o quadro ficar pronto, jogo você no fosso dos crocodilos!
Nos dias que se seguiram, Pedro Malasarte recebeu muitas outras ameaças, uma pior do que a outra. Todos queriam ficar mais bonitos no quadro do que eram na realidade. Mas aí seria Pedro Malasarte quem ficaria feio, pois o governador lhe aliviaria os ombros do peso da cabeça.
Finalmente, ele pediu ao governador que mandasse fechar o salão onde ficaria o quadro e cobrir a parede a ser pintada com cortinas, para protegê-la da poeira.
Pintaria de memória. Para isso desfilaram à sua frente o governador e toda a sua corte, em trajes de gala, assombrados com a capacidade do artista gravar os seus traços só com um olhar.
E toca a misturar tinta. Durante trinta dias, prazo que pedira, Pedro Malasarte comia e bebia à vontade, quando não estava dentro do salão onde pintava a obra-prima.
Findo o prazo, o governador mandou chamá-lo:
- Então, Malasarte, terminou o quadro?
- Está pronto, Alteza, mas só gostaria de mostrá-lo aos nobres que nele aparecem.
O governador mandou que todos os membros da corte se reunissem para ver a obra-prima. Quando o salão estava cheio, Pedro Malasarte, diante da cortina fechada, disse:
- Senhor governador, senhora governadora, ilustres damas, corajosos nobres e soldados! Somente vossos olhos privilegiados poderão ver as maravilhosas imagens pintadas sobre esta parede, que há trinta dias atrás não passava de uma parede branca e nua. Mas preciso preveni-los de que quem não for de sangue nobre nada verá a não ser a parede, como era antes. Isso porque usei tintas especiais, preparadas por um poderoso feiticeiro amigo meu. Abri bem os vossos olhos e contemplai esta obra-prima!
E, abrindo a cortina, mostrou-lhes a parede tão branca como sempre estivera.
Todos arregalavam os olhos e fingiam que viam, comentando detalhes, pois não queriam passar por plebeus sem sangue nobre.
- Que belo olhar tenho eu, vejam só - dizia o Visconde de Boa Vista, apontando para a parede, onde se via com os dois olhos no lugar, em vez de caolho, como era.
- E eu, então? Como estou esbelta! - exclamava a mulher do governador, vendo-se com o corpo dos vinte anos, em vez da bruaca que era agora.
- E que lindo rosto o meu! - gabava-se o capitão da guarda, que se via sem a feia cicatriz que ganhara na guerra.
Ninguém tinha coragem de dizer que só estava vendo uma parede branca e nua. É que, no fundo, se davam por muito satisfeitos por não terem sido apresentados com seus defeitos.
Mais tarde, o governador chamou Pedro Malasarte a sós:
- Aqui entre nós, seu malandro - foi-lhe dizendo - o que há atrás daquelas cortinas é só a parede branca que havia antes. Percebi isso desde o começo. Mas você foi de uma esperteza tão grande, e eu ri tanto de toda aquela gente fingindo se ver no quadro, que vou lhe pagar da mesma maneira como se você o tivesse pintado. Aqui estão mil moedas. Leve-as e desapareça antes que eu mude de ideia!
No mesmo dia, abandonando tintas e pinceis Pedro Malasarte partiu em busca de outros ares.
Realmente escapara daquele aperto por muito pouco.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
"INTERNET" DE ANTIGAMENTE
Abetarda - Nome vulgar das aves pertencentes ao gênero Otis, da família dos otidídeos, ordem dos gruiformes.
Habitantes do Velho Mundo, têm corpo pesado, pernas altas e fortes, pé com três dedos, bico reto, curto e agudo. Vivem em bandos, habitando de preferência as planícies. São aves de caça, mas difíceis de apanhar, por serem muito cautelosas. Alimentam-se de sementes, frutas, ervas, insetos, sapos, lagartixas, etc. A espécie maior é a Otis tarda, de mais de 1 m de altura e 2,50 m de envergadura, pesando 15 kg. Possui colorido ferrugíneo no dorso, com manchas brancas e pretas, e brancacento no lado inferior; a cabeça e a garganta são cinzentas. O macho apresenta na mandíbula inferior uma barba de penas. É encontrada com maior frequência na Europa Oriental e na Ásia Ocidental e Central. Ocorre ainda, esparsamente, em algumas partes da Alemanha, da França, da Espanha e, até o século passado, também na Inglaterra. Uma espécie bastante menor, a Otis tetrax, de 45 cm de altura, é de colorido ferrugíneo, manchado de preto; o colar e o ventre são brancos. Tem as penas do pescoço eriçadas em forma de gola. Habita os países do Mediterrâneo e o norte da África. Espécies asiáticas, que raramente ocorrem na Europa Oriental, são: Otis macqueemi e Otis undulata. No sul e no leste da África ocorre uma espécie afim, a Choriotis kori, e, na Austrália, a Austrotis australis. (Enciclopédia Brasileira Globo, volume 1)
sábado, 7 de março de 2026
SEXAGÉSIMO SEXTO DIA
TEMPO - Sol forte pela manhã.
LINGUAGEM - Mas e mais
Elementar, mas muita gente boa ainda tropeça e não atenta para o uso correto das duas palavras.
sexta-feira, 6 de março de 2026
SEXAGÉSIMO QUINTO DIA
quinta-feira, 5 de março de 2026
SEXAGÉSIMO QUARTO DIA
quarta-feira, 4 de março de 2026
SEXAGÉSIMO TERCEIRO DIA
terça-feira, 3 de março de 2026
SEXAGÉSIMO SEGUNDO DIA
segunda-feira, 2 de março de 2026
SEXAGÉSIMO PRIMEIRO DIA
domingo, 1 de março de 2026
REGISTOS DE DOMINGO
SEXAGÉSIMO DIA
TEMPO - Nublado e frio pela manhã.
HUMOR
A professora fala pra Joãozinho:
- Diga três partes do corpo com a letra "z".
Ele respondeu:
- Zóio, zoreia e zovido.
Aí a professora fala:
- Adivinhe a sua nota! Também começa com "z".
- Ah, deve ser um zoito.
(Da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus - Fevereiro/2026)
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "Malasarte pão e vinho"
Uma vez, caminhava Pedro Malasarte pela estrada, rumo à cidade, onde ia procurar emprego. Lá pelas tantas, encontrou o barbeiro Bonifácio e o alfaiate Jeroboão, que também iam na mesma direção. Eram dois espertalhões, o barbeiro e o alfaiate, sempre prontos a passar a perna nos outros. E não seria Pedro Malasarte quem iria escapar da lábia deles.
Imaginem que nenhum dos dois levava farnel, embora a viagem fosse longa. Tratava-se de uma senhora caminhada! Já estava escurecendo e daí a pouco teriam de parar para passar a noite em algum lugar.
Acontece que a noite caiu antes que encontrassem casa ou hospedaria onde pudessem pedir pousada. O jeito foi se acomodarem da melhor maneira à beira da estrada. Aí o barbeiro disse:
- Ai, que meu estômago já está colado nas costas! Tem alguma coisa na sacola que traz no ombro, amigo Malasarte?
- Só um pãozinho que minha mãe me deu antes de eu sair de casa - respondeu nosso herói. - E um pouco de vinho.
- Pão e vinho? - intrometeu-se o alfaiate. - É o quanto basta para nossa missa. Vamos repartir isso!
Malasarte, porém, sabia que ainda teriam, na manhã seguinte, muito que andar - só chegariam à cidade por volta do meio-dia - e por isso respondeu:
- Meus bons amigos, tenho uma ideia melhor. Dizem que o sono é o melhor alimento. Estamos cansados, não estamos? Então vamos aproveitar e ferrar no sono agora mesmo. Amanhã de manhã, assim que acordarmos, repartimos o meu farnel e logo nos sentiremos bem dispostos para prosseguir a viagem.
Meio a contragosto, seu companheiros de viagem tiveram de concordar, mas cada um já pensando em como haveria de se apoderar do farnel de Malasarte enquanto este dormia.
Dito e feito. Trocaram boas noites, cada um virou para seu lado e, mal ouviram nosso herói ressonar, barbeiro e alfaiate trataram de espichar a mão para a sacola.
Só que, como não haviam combinado entre si, ficou um puxando de cada lado, com todas a força, e a sacola não se mexia. No escuro, começaram a ficar com medo: estaria aquela sacola encantada? Não saía do lugar, por mais que puxassem! E não era Pedro Malasarte quem a estava segurando, pois ele nem havia acordado com aquilo tudo.
Finalmente, no meio de um sonho, o dono da sacola passou o braço por cima dela e os dois malandros ficaram a noite inteira esperando que ele tirasse o braço para tentar novamente.
Já quase amanhecendo, com os olhos muito vermelhos, o barbeiro olhou para a cara do alfaiate:
- Amigo Jeroboão, estamos fritos se daqui a pouco tivermos de repartir por três o farnel deste pateta que está roncando aí no chão. Precisamos dar um jeito de ficar com a refeição só para nós.
- Bonifácio, meu caro - retrucou o alfaiate - pode deixar comigo. Tenho uma ideia. Tratemos de dormir um pouco. De manhã, vamos propor ao Malasarte o seguinte: quem contar o melhor sonho, fica com tudo, o pão e o vinho. É claro que se for um de nós, repartirá com o outro.
O barbeiro concordou e ambos trataram de dormir, pois, até então, com o estômago roncando, não haviam pregado olho. E como dormiram!
Ao acordar, com o sol nascendo, Pedro Malasarte deu com os dois ressonando alto, profundamente adormecidos. E disse para si mesmo:
- O sono é o melhor alimento. O negócio é deixá-los dormir. Quanto a mim, que estou acordado, vou tratar de comer, que a fome é grande.
E com muita satisfação devorou o seu pãozinho e o regou, depois, com o vinho que trazia.
Em seguida, como ainda era cedo, deitou-se novamente e acabou cochilando.
Naquela modorra, viu quando Bonifácio e Jeroboão despertaram e tiveram esta conversa:
- Como é, amigo Bonifácio? Sonhou alguma coisa que se aproveitasse? - perguntou o alfaiate.
- Puxa, se sonhei! - respondeu o barbeiro. - Imagine que eu estava no céu, fazendo a barba de todos os santos! Que felicidade. E você, Jeroboão?
- E eu, então? - retrucou o alfaiate. - Pois mal fechei os olhos me vi direitinho, mas no inferno, cara a cara com o Diabo. E quer saber do que mais? Ele queria uma roupa nova, bem vermelha! Estava tirando as medidas, quando acordei. Que cheiro de enxofre.
- Duvido que o pateta do Malasarte tenha sonhado alguma coisa que preste - disse o barbeiro. - Vamos tratar de acordá-lo e fazer a ele a nossa proposta!
E mais do que depressa deram duas ou três sacudidelas no companheiro, que continuava abraçado com sua sacola.
Fingindo que acordava de um sono profundo, Pedro Malasarte esfregou os olhos e com cara de tolo ouviu a proposta dos dois espertalhões. Quem contasse o melhor sonho comeria o farnel todo. Mas Malasarte perguntou, soltando um enorme bocejo:
- Farnel? Que farnel?
- Ora, esse aí que você carrega na sacola! - exclamaram Bonifácio e Jeroboão.
- Meus amigos, o farnel já era - disse Malasarte. - Acabei de comê-lo indagora! E chorando!
- Chorando? - repetiram os dois malandros, entre perplexos e desapontados.
- E como não haveria de chorar? - continuou Malasarte. - Pois sonhei que havia perdido meus pobres companheiros! Imaginem só que vocês dois haviam morrido. O meu bom amigo aqui, o barbeiro Bonifácio, uma alma pura, tinha sido levado para o céu, por um anjo, para fazer a barba de todos os santos. Como estava feliz! Já o meu ainda melhor amigo aqui, o alfaiate Jeroboão, que deve estar devendo alguma coisa a São Pedro, estava com dois olhos assim arregalados porque foi parar direitinho no inferno - e com a incumbência de fazer imediatamente uma roupa nova para o Diabo!
Bonifácio e Jeroboão se entreolharam, boquiabertos.
- Bem, meus amigos - prosseguiu Malasarte. - Eu nunca soube que alguém tivesse ido parar no céu ou no inferno e depois voltado para este mundo. Por isso, muito tranquilamente, ainda com lágrimas nos olhos, abri minha sacola e tratei de comer o meu pãozinho, regando-o depois com minha meia garrafa de vinho. Foi o jeito que achei de me consolar.
E notando a cara desapontada dos dois, concluiu:
- Mas que caras são essas? Então vocês escapam de ir desta para a melhor e não ficam alegres? Vamos cantar e dançar, minha gente!
Começou a cantar e a bater palmas, enquanto Bonifácio e Jeroboão, muito sem jeito, mas para disfarçar, ensaiavam dois ou três passos.
Depois, com a barriga roncando, prosseguiram a viagem. Malasarte ia lépido, na frente. Seus companheiros, trocando as pernas, mal podiam acompanhá-lo. Mas afinal chegaram, mais mortos do que vivos, à cidade.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
LINGUAGEM - Arguir
Além do sentido de fazer perguntas a aluno, o verbo tem muitos outros, encontráveis em qualquer dicionário. Precisamente a acepção tão corrente na linguagem escolar é que falta na memória dos léxicos. Só Francisco Fernandes a consignou, abonando-se com o seguinte exemplo de Rui Barbosa, tomado à sua tradução das "Lições de Coisas".
"Nesta fase do ensino, argua o mestre os alunos, com perguntas deste gênero".
Arguir também quer dizer acusar, no sentido de censurar. Constrói-se com "de".
No período de D. Silvério, anotado pelo consulente, significa, por igual, acusar, mas na acepção de revelar, denotar, inculcar. Diz assim:
"Minha presença nesta respeitável assembleia das letras pátrias argui em mim uma temeridade pouco explicável em meus anos..." (Aires da Mata Machado Filho)
Arguir é uma entre muitas palavras desconhecidas desta geração.
PROVÉRBIO DE LÚLIO - A justiça reluz no o príncipe e a lealdade do povo.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
QUE PALAVRA!
QUINQUAGÉSIMO NONO DIA
TEMPO - Nublado pela manhã.
DESAFIO
Assinale a alternativa correta que está na ordem direta: "Serviu Jacó os primeiros sete anos a Labão".
a) Serviu os primeiros sete anos Jacó a Labão
b) A Labão serviu os primeiros sete anos Jacó
c) Os primeiros sete anos serviu Jacó a Labão
d) Jacó serviu a Labão os primeiros sete anos
e) Os primeiros sete anos Jacó serviu a Labão
SAÚDE - O cuidado com as moscas nesse período deve ser dobrado.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
QUINQUASÉSIMO OITAVO DIA
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
QUINQUAGÉSIMO SÉTIMO DIA
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
QUINQUAGÉSIMMO SEXTO DIA
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
QUINQUAGÉSIMO QUINTO DIA
TEMPO - Céu limpo. Calor pela tarde.
LINGUAGEM - "Frente a"
Embora muito utilizada no "economês", sobretudo quando se fala do mercado de câmbio ("O dólar frente ao real"), a expressão "frente a" não é acolhida no padrão culto da língua. Nesse registro e nesse contexto, a expressão corrente é "em relação a":
O dólar se desvalorizou em relação ao real. (Dicas de Pasquale)
TRÂNSITO - Colho de "Smalville - As aventuras do Superboy" a seguinte lição: Lex Luthor sofre um grave acidente e o herói o salva. Lex pergunta ao pai do herói a maneira de retribuir pelo o que ele fez. O pai responde: "Dirija mais devagar".
SAÚDE - Estudiosos alertam para algo relacionado ao nosso coração: levantar bruscamente não é saudável e até perigoso. Tomar café logo depois de acordar também não é bom.
E qual o correto? É levantar-se devagar, tomar um copo d'água e caminhar ou correr, se for o caso.
Como um motor de carro ou moto - No nosso corpo tem um motor muito importante e até indispensável à vida. Um motor, sendo acionado a ponto de fazer o automóvel correr sem aquecer, pode parar de vez. Eis a similaridade.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
QUINQUAGÉSIMO QUARTO DIA
PROVÉRBIO
As malícias se entendam com a razão e as virtudes com a vontade.
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A expressão acima serve para ilustrar momentos em que as coisas vão arrochar, complicar-se, chegou a hora da onça beber água e outras expre...
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Ainda na cidade Jaime Americano. Faz visitas às pessoas que o conheciam quando este morava aqui na virada da década de 60. Já visitou também...
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Seguimos sem chuva no mês. Mês chovedor, maio ainda não brindou por aqui com uma chuva. Aguardemos, pois, com muita calma. O que vem de cima...