domingo, 5 de abril de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

NONAGÉSIMO QUINTO DIA

TEMPO -  Sol pela manhã. Manhã agradável.

CHUVAS DE MARÇO - 108 milímetros. 

SOMBRIO - Vivemos tempo sombrio no que se refere às chuvas até agora. Menos de trezentos milímetros em três meses. 

PORÉM - Porém abril e maio podem superar e chover bastante.

UPANEMÊS - Olha o dedim! (ê) - Usado nas negativas. Quando queremos discordar de alguém diante de alguma afirmativa.

PROVÉRBIO DE LÚLIO - A maldade do príncipe faz muito mal à lealdade do povo.

APRENDENDO A VIVER - Alcançarás a suma sabedoria se fechares os ouvidos, mas fechá-los com um pouco de cera não é suficiente. É necessário que seja um tampo mais eficaz do que aquele que, segundo contam, foi usado por Ulisses e seus companheiros. A voz que ele temia era sedutora, mas não inteiramente. Porém, essa que devemos temer agora não ressoa de um único lugar, mas de todo canto da terra. Não há um lugar único suspeito por seus insidiosos prazeres, mas sim todas as cidades. Torna-te surdo inclusive com as pessoas que te amam muito, pois, mesmo com as melhores intenções, te desejam o mal. (Aprendendo a viver, de Sêneca - Conselhos ao amigo Lucílio).

HISTÓRIA ANTIGA

Pedro Malasarte em "Ai que dor de dente"

Cansado de andar, Pedro Malasarte chegou a uma grande cidade. Já haviam se passado dois dias desde que se banqueteara com os cegos e seu estômago dava horas.

Para piorar ainda mais sua situação, estava com uma dor de dentes que mal podia suportar.

Mas não tinha dinheiro nem para pagar o dentista - que naquele tempo era o barbeiro - nem para comer. Gastara as últimas moedas no caminho, comprando um burrico para uma pobre velha que também ia para a cidade mas mal podia andar.

Ia mergulhado em tristes pensamentos quando passou na porta de uma padaria. Acabava de sair uma fornada e o cheiro de pão enchia o ar.

Pedro Malasarte olhou para dentro e viu toda espécie de pães e bolos.

Ficou com água na boca.

O dono da padaria estava na porta, com seu avental branco, e parecia ter o rei na barriga. Em tom de mofa, vendo a cara de Pedro Malasarte, perguntou-lhe:

- Quantos pães e doces seriam necessários para matar a sua fome, hein?

Nosso herói respondeu sem hesitar:

- Puxa, aposto que comeria uns cem...

- Ora, ora! - exclamou o padeiro, que adorava fazer apostas. - Que posso lhe fazer se não conseguir comer mesmo cem pães doces?

- Amigo padeiro, já deve ter percebido que não tenho comigo um só tostão. Mas para lhe mostrar que sou mesmo capaz de fazer o que estou dizendo, pode mandar me arrancar um dente de quatro raízes se não comer cem pães e doces!

Arrancar dente sempre foi coisa de meter medo. Divertido com a aposta, o dono da padaria mandou Pedro Malasarte entrar e serviu-lhe os mais finos produtos do seu estabelecimento. Pãezinhos de queijo e broas, bolos, doces, marias-moles e tudo o mais.

Nosso herói estava mesmo com uma fome de lobo e conseguiu comer, sem maior esforço, uns quatro pães, duas ou três broas, algumas roscas e quatro ou cinco doces.

Dando-se por satisfeito, virou-se para o padeiro:

- É... Não é que não consigo nem olhar mais para pães e doces?

Prontamente o outro o agarrou pelo braço e levou-o ao barbeiro:

- Amigo barbeiro, trate de arrancar por minha conta um dente de quatro raízes deste malandro!

- Este aqui, este aqui - apontou Pedro Malasarte, mais que depressa, rindo por dentro.

O barbeiro arrancou-lhe o dente dolorido em três tempos. Não doeu tanto assim, mas Malasarte fez muitas caretas.

- Está vendo só no que dá fazer apostas? - disse o padeiro, com ar triunfante. - Devia ter visto logo que não poderia comer tanto assim.

- Pois agora é que vou comer muito mais! - retrucou Pedro Malasarte.

E foi-se embora assobiando, com a barriga cheia e livre do dente que tanto o incomodava, sem gastar um tostão.

(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).

MERCADO - Oferta e procura

Oferta - É a quantidade de mercadorias ou bens produzidos e oferecidos para o mercado, a preços diferentes num determinado período de tempo. É enfim, a relação existente entre os preços do mercado e as quantidades que os produtores estão dispostos a oferecer.

Procura - É a quantidade de bens ou mercadorias que os consumidores pretendem e estão aptos a comprar, a vários preços, durante um determinado espaço de tempo. É a relação entre os preços e a quantidade de bens adquiridos no mercado pelos consumidores. (Elementos Básicos da Economia Rural, de Paulo Pereira dos Santos)

PLANTA MEDICINAL - Alho

Bronquite, gripe (alho com leite), evita congestão, ajuda baixar a pressão usando de 20 a 30 gotas de tintura. Combate os vermes, tomado com leite ou limão; febrífugo, contra diabete, alho com azeite alivia dores de ouvido. Combate areias e pedras da bexiga. É bom colocar sobre cortes e quando se pisa em prego, é desinfectante. ("Cuide de sua saúde", de Jaime Brüning)

"INTERNET" DE ANTIGAMENTE

Abeto - Nome vulgar de diversas espécies de árvores coníferas da família das pináceas, encontradas nas montanhas das regiões temperadas do hemisfério norte. Tem porte alto, ereto, de forma mais ou menos piramidal. Folhas sempre verdes e flores quase invisíveis: os frutos são cones ou pinhas de forma cilíndrica, de tamanho variável. Algumas espécies são estimadas pela sua madeira, outras pela sua resina, e a sua casca contém de 7 a 13% de tanino. Os abetos verdadeiros pertencem ao gênero Abies, que se distinguem dos abetos falsos, gênero Picea, pelos cones eretos e folhas persistentes. A espécie Abies pectinata (abeto comum ou branco), atinge cerca de 65 m de altura e tem a casca prateada, e de cujo lenho extrai-se a terebintina. É encontrada na Europa Central e Meridional e na Ásia Menor. A Abies balsamea, que ocorre na parte nororiental da América do Note, assemelha-se às espécies europeias, mas delas difere por ter as folhas mais curtas e mais abundantes; sua casca fornece o afamado balsamo-do-canadá. Atinge 15 m de altura e foi introduzida na Europa. A Picea excelsa (abeto roxo), atinge cerca de 50 m de altura e forma extensos bosques na Europa Central, na Escandinávia, na Rússia e na Sibéria. A Picea rubra é a principal fonte de polpa de papel na América do Norte. Entre as espécies ornamentais figura a Picea abies, da Escandinávia. Há algumas espécies introduzidas no Brasil e cultivadas como ornamentais, como a Abies concolor, de 45 metros de altura e a Abies commutata, de 30 m de altura, ambas oriundas da América do Norte. (Enciclopédia Brasileira Globo, volume 1).

DEU NO JORNAL

Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro

24 de abril de 1892 - Machado de Assis

Na segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros. Sou como as atrizes, que já não fazem benefício, mas festa artística. A coisa é a mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em número, seja em preço; o resto, comédia, drama, opereta, uma polca entre dois atos, uma poesia, vários ramalhetes, lampiões fora, e os colegas em grande gala, oferecendo em cena o retrato à beneficiada.

Tudo pede certa elevação. Conheci dois velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: “Caro major!” -”Pronto, comendador!” — Variavam às vezes: — “Caro comendador!” -”Aí vou, major”. Tudo pede certa elevação.

Para não ir mais longe, Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A prisão do heroico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra coisa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração da glória. Merecem, decerto, a nossa estimação aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.

Um dos oradores do dia 21 observou que se a Inconfidência tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, não para o alferes. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Oceânides diante de Prometeu encadeado. Relede Ésquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das coisas. Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu narrando os seus crimes às ninfas amadas: “Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as artes”. Foi o que nos fez Tiradentes.

Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma coisa a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião-dentista. Era o mesmo herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.

Há muitos anos, um rapaz — por sinal que bonito — estava para casar com uma linda moça —, a aprazimento de todos, pais e mães, irmãos, tios e primos. Mas o noivo demorava o consórcio; adiava de um sábado para outro, depois quinta-feira, logo terça, mais tarde sábado; — dois meses de espera. Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou à mulher os seus receios. Talvez o rapaz não quisesse casar. A sogra, que antes de o ser já era, pegou do pau moral, e foi ter com o esquisito genro. Que histórias eram aquelas de adiamentos?

— Perdão, minha senhora, é uma nobre e alta razão; espero apenas...

— Apenas...?

— Apenas o meu título de agrimensor.

— De agrimensor? Mas quem lhe diz que minha filha precisa do seu ofício para comer? Case, que não morrerá de fome; o título virá depois.

— Perdão, mas não é pelo título de agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. Lá na roça dá-se ao agrimensor, por cortesia, o título de doutor, e eu quisera casar já doutor...

Sogra, sogro, noiva, parentes, todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moço. Em boa hora o fizeram. Dali a três meses recebia o noivo os títulos de agrimensor, de doutor e de marido.

Daqui ao caso eleitoral é menos que um passo; mas, não entendendo eu de política, ignoro se a ausência de tão grande parte do eleitorado na eleição do dia 20 quer dizer descrença, como afirmam uns, ou abstenção como outros juram. A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor: a abstenção é propósito. Há quem não veja em tudo isto mais que ignorância do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patrícios. O que sei, é que fui à minha seção para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e ofícios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os mesários não tinham sido avisados e os eleitores eram cinco. Discutimos a questão de saber o que é que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinhação de segunda-feira. Dividiram-se as opiniões; uns foram pelo ovo outros pela galinha; o próprio galo teve um voto. Os candidatos é que não tiveram nem um, porque os mesários não vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:

Sara, belle d'indolence,

Se balance

Dans un hamac...

sábado, 4 de abril de 2026

NONAGÉSIMO QUARTO DIA

TEMPO - Frio pela manhã.

CHUVAS DE FEVEREIRO - 138 milímetros

Destacamos a chuva do dia 6: 95 milímetros.

CHUVA DE ONTEM - 8 milímetros.

QUE PALAVRA!

Balacubau

O salto do pirarucu na água; bolocobó. (Grande Aurélio)


sexta-feira, 3 de abril de 2026

NONAGÉSIMO TERCEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Chuva pela noite.

LINGUAGEM - Cara e rosto

Há uma pesquisa interessante de Aires da Mata Machado Filho sobre as duas palavras. 

Entre lavar a cara e lavar o rosto, diz ele que costumava usar o primeiro termo, mas foi censurado por alguém que preferia o segundo.

"Cara é de burro", disseram rindo.

No princípio, não se dizia rosto, mas bico. Rosto é termo poético e há tantos termos que usamos "cara" normalmente: mostrar boa ou má cara: acolher bem ou mal; partir a cara a alguém: esbofeteá-lo; Quem vê cara não vê coração: nem sempre o sentimento que aparenta o semblante são os sentimentos verdadeiros; fechar a cara: pôr-se de mau humor.

CHUVAS DE JANEIRO - Somente 3 milímetros em janeiro e na última semana.

PROVÉRBIO

As palavras passam e as obras ficam.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

NONAGÉSIMO SEGUNDO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Frio. Nublado pela tarde. Bela nuvens. Neblina leve no começo da noite.

LINGUAGEM - Sírio e círio

Sírio é mais  conhecido como o habitante da República da Síria. 

Entretanto, há outra definição: Segundo  Antenor Nascentes, é o nome da estrela mais brilhante da constelação do Grande Cão.

Círio com "c" é uma vela grande.

CHUVA - 9 mm a chuva de ontem entre a manhã e tarde. 

PROVÉRBIO

As palavras más corrompem os costumes bons.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

NONAGÉSIMO PRIMEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã e neblina.

CHUVA - A chuva rápida de ontem foi de 4 mm.

LINGUAGEM - Servo e cervo

Duas palavras com pronúncias iguais e significados diferentes. 

Um é aquele que serve; o outro, um animal.

PROVÉRBIO

As palavras do mau são manjar saboroso com peçonha. 

terça-feira, 31 de março de 2026

NONAGÉSIMO DIA

TEMPO - Sol pela manhã. Pela tarde, nublado e com perspectivas de chuva. Neblina leve pela tarde.

LINGUAGEM - Caranguejo é escrito assim e não de outro jeito.

PROVÉRBIO

As obrigações esquecem logo; as mágoas nunca.

segunda-feira, 30 de março de 2026

OCTOGÉSIMO NONO DIA

TEMPO - Nublado. Manhã chuvosa. Tarde nublada, com ares de chuva.

LITERATURA - A lesão

Estava certo. Era preciso passar pelo menos um ano em lugar de bom clima e meu pai decidira mandar-me para Vila da Mata onde os Pereira, nossos primos, me ofereciam a fazenda do Córrego Fundo. O doutor dissera que eu tinha uma lesão de primeiro grau no pulmão direito. Sua luneta de tartaruga, de cordão preto atrás da orelha, dava-lhe um ar de sábio infalível. Eu não acreditava na lesão, mas acreditava no doutor.

À noite, meu pai, já conformado com a ideia da moléstia e da minha próxima ausência, veio ver-me no quarto, fingindo bom humor:

- Então, seu chefe, as malas estão prontas?

Nem estavam prontas, nem eu tinha vontade de prepará-las para tal viagem. Francamente ir meter-me naquela remota Vila da Mata? Que ideia! Muito mais divertido seria tratar-me na Europa... Na Suíça, por exemplo. Sim, por que não na Suíça? Realmente! (Cabocla, de Ribeiro Couto)

A narrativa trata de uma doença muito comum e cruel na época em que foi escrito o romance. A cura ou paliativo era o paciente tomar alguns antibióticos e isolar em lugares de ares puros. Vila da Mata era ideal.

O narrador fala da tuberculose sem se referir diretamente a ela. Usa um recurso linguístico chamado eufemismo: minimiza o problema.



PROVÉRBIO

As obras sem esperança são como corpo sem alma.

domingo, 29 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

OCTOGÉSIMO OITAVO DIA

TEMPO - Sol pela manhã e nuvens.

HISTÓRIAS ANTIGAS

Um só socó

Aquém, muito aquém daquela serra que não dá pra ver daqui, começavam as margens plácidas da nação dos potiguares.

Hoje, o mangue engole tudo. Só quem anda por lá são são os chama-marés de corpo destamainho e patolas enormes acenando para a vazante. Bichos muito insignificantes que nunca entraram em livro nenhum.

Mas o mundo começava nas brancas areias do Potengi, pode perguntar a quem entende. Era ali onde o bravo Poti, quando encontrava um tempinho, ia brincar de cangapé com os amigos da taba. Claro que ele, o bravo guerreiro, quase não tinha tempo: vivia ocupadíssimo nas páginas alencarinas, matando goiamum a flechada, descangotando tabajara com a força do seu tacape e acompanhando, quem nem um tonto, o cara-pálida Martim. Como se não bastasse, mudou o nome para Felipe Camarão, morreu metido em briga de branco e, bem feito, terminou entrando na História do Brasil de Pedro Calmon.

Centenas de luas depois da vida, paixão e morte de Poti (exatamente duas mil, quatrocentas e doze luas), aquilo lá era o lugar que o caçador Cançado escolhia para matar socós. Nesse dia foi assim:

Ele fez pontaria num bando de socós, atirou no meio deles, enquanto pensava: um só socó pra três socós coçar, seu jogo de quebra língua preferido. Foi pena pra todo lado. Dois socós caíram estrebuchando, epiléticos, agonizantes. Dois outros patinaram na lama, tentando a decolagem, mas de repente ficaram mais pesados do que o ar, desajeitados como um avião pioneiro.

E o caçador vendo tudo e rindo, a espingarda fumegando na mão, sádico que só a peste, pois o desgraçado do socó não tinha serventia nenhuma. Era impossível depená-lo, o couro se despregava todo com um só puxão nas penas. E se ia pra água quente, que ajuda a tirar as penas de qualquer pássaro, parecia que o falecido socó se vingava. Empestava os ares com cheiro de enxofre, de bosta, de peixe ardido. Ninguém comia aquilo.

De repente, um rumor suspeito quebra a doce harmonia da festa. Melhor dizendo: o mato estalou como num filme americano. Cançado olhou pra trás e viu a índia gorda, os peitos ubérrimos, idade indefinida de índia. Foi como um raio fúlgido no seu peito lusitano: tesão à primeira vista, fulminante.

- Hosana! - ele gritou, desarmado, besta, o coração latejando. - Hosana!

A índia desembestou pelo mato, um pouco menos ágil do que as índias de Alencar, mesmo assim ligeira que só a peste. E lá vai o caçador atrás, laço na mão, pega não pega.

Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, seis quilômetros e meio de corrida, ele laçou a índia. Estavam bem perto do Rio Doce, filete de riacho que morre antes de chegar no mar de areias brancas dos antigos potiguares.

 - Hosana! - disse ele, com palmo e meio de língua pra fora.

- Hosana! - ela repetiu, rindo, batendo no meio dos peitos generosos. (O dia das moscas - romance de Nei Leandro de Castro)

UPANEMÊS

Lavar o pescoço: tomar uma dose de cachaça.

SAÚDE

Mastruço - Contra doenças do peito,, bronquite, moléstias dos rins e do estômago; é diurético, é contra o raquitismo; dá ótima salada, tem boa aplicação nos casos de quedas e machucaduras. 

(Dicas de Jaime Brüning)

sábado, 28 de março de 2026

QUE PALAVRA!

Bricabraque

Estabelecimento comercial que compra e vende obras de arte, ferro-velho e objetos usados. (Silveira Bueno).

Velhos objetos de arte, mobílias, roupas, bijuterias etc. Estabelecimento comercial que compra e vende obras de arte e objetos usados; belchior, brechó. Objetos domésticos usados de pouco valor. (Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras).

Conjunto de diversos e velhos objetos de arte ou artesanato, antiguidade etc. Estabelecimento que compra e vende tais objetos. Do fr. bric-à-brac, de formação expressiva. (Antônio Geraldo da Cunha em Dicionário Etimológico Nova Fronteira).

Belchior (ó), o alfarrabista, adelo, sebo (ê), o ferro-velho. (Cândido Jucá Filho, em Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa).

OCTOGÉSIMO SÉTIMO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - Alta cultura

Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
(Odisseia, de Homero)

Homero utiliza uma linguagem de alto nível que só será entendida com o auxílio de estudiosos.

O varão é Ulisses. 
Rasa Ílion santa: arrasa Troia sagrada (Ulisses foi um dos heróis gregos que  combateram contra Troia).
Equóreo ponto: mar.
Baldo: inútil.
Ao claro Hiperônio: do claro deus do sol.
Prole Dial: descendência de Zeus (prole se refere à Musa, do primeiro verso).

CHUVA - A boa chuva de ontem entre a tarde e a noite foi de 16 milímetros. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

OCTOGÉSIMO SEXTO DIA

TEMPO - Sol pela manhã, com poucas nuvens. Boa chuva pela tarde.

LINGUAGEM - Calda e cauda

Calda - mistura ou solução de açúcar e água, fervidos.

Cauda - rabo.

Elementar, meus caros!

TRÂNSITO - De periculosidade 

Guiar motos está cada vez mais perigoso, tendo em vista o aumento diário desses veículos e o número de pessoas que têm dificuldades em conduzi-las corretamente.

Ainda que demos total atenção no trânsito e façamos tudo como manda o bom senso e a lei, o risco de acidente torna-se inevitável.

FILOSOFIA - Saber perguntar

Saber perguntar é, muitas vezes, mais difícil do que saber responder.

PROVÉRBIO

As obras são prova do homem.

quinta-feira, 26 de março de 2026

OCTOGÉSIMO QUINTO DIA

TEMPO - Nublado e frio pela manhã.

CHUVA - Reclamávamos ontem pela falta da chuva. Pois não é que ela veio? Na entrada da noite, tivemos bons 20 milímetros.

LINGUAGEM - O texto a seguir foi publicado há mais de cem anos. Mais precisamente em 1900. Não podemos admirar que algumas palavras ou expressões sejam desconhecidas por que caiu no desuso. Mas que é interessante, é. 

Palavra como "alcunha" e expressões como "conhecer de vista e de chapéu" e "sentar-se ao pé de alguém", são desconhecidas de muita gente. O trem, transporte usual daquela época, não falta nos textos de Machado de Assis. Pois vamos ao texto:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele.

- São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”. - "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”. - "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto. (Capítulo 1 de Dom Casmurro, Machado de Assis).

SAÚDE - Mais uma temporada de vacinação contra a influenza.

PROVÉRBIO

As obras hão de ser do mesmo metal das palavras.

quarta-feira, 25 de março de 2026

OCTOGÉSIMO QUARTO DIA

TEMPO - Sol pela manhã.

LINGUAGEM - Cal

Apesar de ser considerada uma palavra masculina na boca de muitas pessoas, não é. 

A cal é a forma correta.

De onde, então vem o equívoco?

Supõe-se que as palavras mal e sal, masculinas, tenham influenciadas as pessoas a pensarem que cal também seja.

CÉU - Ao olhar para o céu, a gente só vê grossas e bonitas nuvens. As chuvas se preparam para vir, mas vêm em pouco volume.

CHUVA - Na entrada da noite. Boa chuva que renderá uns bons milímetros.

PROVÉRBIO

As obras falem e as palavras calem.

terça-feira, 24 de março de 2026

OCTOGÉSIMO TERCEIRO DIA

TEMPO - Sol pela manhã.

LINGUAGEM - Cabina e cabine

Cabina é a forma aportuguesada de cabine, francês.

No Brasil é utilizado mais cabine: aposento, camarote.

PROVÉRBIO

As muitas cautelas ganham às vezes pouco, mas seguram muito.

segunda-feira, 23 de março de 2026

OCTOGÉSIMO SEGUNDO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

CHUVA - Ontem no começo da noite, um pequeno registro: 4 mm.

LINGUAGEM - Cabeleireiro

O profissional do corte de cabelo é cabeleireiro e não outros nomes que são ditos por aí.

MODO DE VIDA 

O cérebro necessita de descanso. Elementar. Apesar de elementar, pouca gente atenta para isso. E o que quase todo mundo faz?

No lugar de descansar o cérebro, ocupa-o com outras atividades mais desgastantes do que as que executamos diariamente.

PROVÉRBIO

As moças hão de andar bem vestidas e os moços fartos.

domingo, 22 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

OCTOGÉSIMO PRIMEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Neblina pela tarde.

LINGUAGEM - Gíria em inglês

To ace a test - Significa desempenhar muito bem em uma prova; tirar um A, ou um 10, como dizemos no Brasil.

Ex: I aced the math test today. Fui muito bem na prova de matemática hoje.

CHUVA - Pequeno registro ontem pela tarde: 4 mm.

LITERATURA - Machado de Assis, numa pitada de humor, escreve crônicas para os jornais da época, lá nos idos de 1861. 

Ao definir o verbo, diz que é uma palavra com que afirmamos outra. E dá exemplos: As ruas do Rio de Janeiro andam imundas porque fiscais não se importam com isso. O luxo é extraordinário porque poucos pagam as suas dívidas. A iluminação a gás não clareia depois de duas horas da noite porque mandam apagar metade dos lampiões. As chuvas alagam a cidade porque as valas estão sempre entupidas.

A crônica de Machado até parece que foi escrita nesta semana. Alguns dos problemas ali denunciados persistem, apesar dos avanços no progresso.

Destaco o alagamento das ruas nas cidades grandes e pequenas.

Quanto à iluminação à gás, era uma forma de iluminação pública naquela época. Não se tem notícia, ou não tenho notícia que tivemos esse tipo de iluminação pública. O que sabemos é que era movido a motor até fins dos anos 60, quando chegou até nós a energia de Paulo Afonso.

HUMOR - Proposta

Um homem contrata um advogado para defendê-lo, mas um amigo o avisa que ele deve oferecer dinheiro para aumentar as chances de sucesso. No dia da audiência, o acusado faz uma proposta  ao advogado.

- Vamos combinar o seguinte: se eu pegar cinco anos de cadeia, vou pagar 10 mil para você; agora, se eu pegar três anos, vou pagar 15 mil. Porém, se eu pegar só um ano, dou 20 mil para você. Aceita?

- Combinado.

No dia seguinte, o advogado vai visitar o seu cliente na prisão.

- Eu consegui só um ano para você. Portanto, sua dívida é de 20 mil. E olhe que tive sorte, pois eles queriam absolvê-lo. (Joana Augusto da Silva - Amparo/ São Paulo - Da Folhinha Sagrado Coração de Jesus)

SAÚDE - A virose ataca com força. A notícia boa é que a onda passará logo.

sábado, 21 de março de 2026

QUE PALAVRA!

Milhardário 

A certa  altura, uma portaria estabeleceu que todos os cidadãos com mais de 65 anos podiam sacar seu dinheiro. Um idoso milhardário, mas com consciência das desigualdades brasileiras, ligou para o Banco Central perguntando se até ele, rico, poderia sacar todo o dinheiro que tinha. (Saga Brasileira - Miriam Leitão)

O texto faz referência ao tempo do Plano Collor, quando ocorreu o denominado "confisco da poupança".

Milhardário é uma das palavras que não encontramos com facilidade em dicionários. No Grande Aurélio, quando consultamos a palavra milhardário, não a encontramos, mas miliardário. Ainda asim, somos direcionados para a palavra bilionário.

E o que é um bilionário? Quem é duas vezes milionário.

Milhardário é uma variante de miliardário: ricaço, bilionário, multimilionário, nababo. (Dicionário das Dificuldades da Língua Portuguesa,  de Cândido Jucá Filho)

OCTOGÉSIMO DIA

TEMPO - Sol bom, forte, poucas nuvens e leve aragem. Neblina e mundão de chuva pela tarde.

LINGUAGEM - Cabeçalho

Cabeçalho é o alto de uma página impressa ou escrita à mão.

Escrito com ç, bem que poderia ser com dois esses (s), mas por questão etimológica é com ç cedilha mesmo.

TRÂNSITO - Andar devagar ou, literalmente falando, correndo em baixa velocidade é tarefa que exige controle emocional para aquele que conduz um transporte. 

A alta velocidade tem deixado muitas pessoas inválidas ou mortas.

LITERATURA - Arte

O conceito de arte ainda está em aberto, mas sabe-se que é o produto e que encerra uma ideia de fazer. Aqui devemos separar coisas tais como a "arte de falar", "arte de viver" e certos ofícios situados mais na área do artesanato, que se supõe seja mais uma técnica. Pela dificuldade de conceituar a Arte, alguns filósofos começaram a desenvolver o que ficou conhecido por "filosofia da Arte", para discutir se a Arte tem seus próprios métodos ou seus próprios objetivos. (Vocabulário Técnico de Literatura - Assis Brasil).

A literatura é, portanto, arte da palavra, utilizando-a esteticamente, no sentido de torná-la bela, culta, criativa.

sexta-feira, 20 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO NONO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - O substantivo "cabeça".

Cabeça é um substantivo feminino quando significa parte do corpo humano. Quando significa o chefe, é substantivo masculino.

SAÚDE - A virosa grassa.

CHUVA - As chuvas escasseiam, como bem previram os profetas da chuva e os estudiosos do clima.

Dia de São José - Por aqui, o dia foi seco. Assim, se se confirmar a seca verde, confirmará também a crença de que se não chove naquele dia, não se tem bom inverno.

Pasto para os brutos - Pelo menos teremos pasto para os brutos, dizem os que trabalham no campo e lutam com bichos.

PROVÉRBIO

As mezinhas todas amargam.

quinta-feira, 19 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO OITAVO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - Linguagem regional

Em que região do país fala-se dessa maneira?

"Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro com a guaiaca enpanzinada de onças de ouro, para parar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.

Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.
 
- Olhe, ali na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo na beira do passo, desencilhei, e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda".


PROVÉRBIO

As más suspeitas destroem as verdades.

quarta-feira, 18 de março de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO SEXTO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Ontem tivemos mais uma chuva.

CHUVA DE ONTEM - 10 mm.

LINGUAGEM - Brabo e bravo

As duas palavras são corretas, porém bravo é mais atual e brabo está quase no esquecimento.

SAÚDE - A virose ou viroses voltaram. Voltam sempre, no mesmo período.

PROVÉRBIO

As más novas voam como o pensamento.

domingo, 15 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

SEPTUAGÉSIMO QUARTO DIA

TEMPO - Sol e poucas nuvens.

HISTÓRIA ANTIGA

Pedro Malasarte em "O banquete dos cegos"

Saindo daquela cidade, Pedro Malasarte meteu o pé na estrada. Ia alegre da vida, assobiando, quando foi empurrado por um cavaleiro e caiu de comprido na vala cheia de lama ao lado do caminho. Sentado na lama, furioso com as risadas que ouvia ao seu redor, viu passar uma suntuosa comitiva, no meio da qual ia um alto personagem, provido de uma imensa barriga e todo vestido de vermelho. Sua arrogância não tinha limites.

- Quem é essa figura? - perguntou Pedro Malasarte a um camponês que ia passando.

- Então você não sabe? - retrucou o camponês, de olhos arregalados. - É o novo cardeal! Acaba de chegar de Roma e vai morar na nossa cidade!

Positivamente Pedro Malasarte não simpatizara com o cardeal, que se dava tais ares de importância que parecia o próprio papa. E muito menos com a escolta de soldados mal-encarados que o acompanhava.

Levantando-se, tratou de procurar uma hospedaria onde pudesse tomar um banho e lavar as roupas enlameadas. 

Chegou bem na hora o almoço. Havia sobre a mesa uma montanha de comida fumegante. E que quitutes!

É que o cardeal, com sua comitiva, havia parado para almoçar ali. 

Nesse momento, um grupo de cegos - pelo menos uns doze - apareceu na porta, pedindo comida.

Os soldados já se preparavam para expulsá-los, quando Pedro Malasarte se intrometeu:

- Deixem em paz os ceguinhos, seus brutos. Eles vão sentar e comer à vontade. E quem paga sou eu.

Disse isto baixinho, já com uma ideia na cabeça. Logo serviram as mais finas iguarias aos ceguinhos, que havia muito tempo não enchiam a barriga tão bem.

Enquanto isso, Pedro Malasarte tomava seu banho e se lavava. Depois sentou-se à mesa dos ceguinhos e comeu com eles, rindo e brincando. 

Lá pelas tantas, sacudiu algumas moedas para os cegos ouvirem e lhes disse:

- Bem, meus amigos, vou andando. Deixo aqui em cima da mesa o dinheiro para pagarem o nosso bom hospedeiro.

E saiu de fininho, levando as moedas. 

Os cegos, por mais que procurassem, não encontravam o dinheiro. E quando o dono da hospedaria apareceu para cobrar pelos excelentes pratos que lhes havia servido, foi um verdadeiro pandemônio. Cada um dos pobres cegos acusava o vizinho de ter embolsado as moedas e ninguém chegava a uma conclusão. O hospedeiro ficou furioso e já se dispunha a trancá-los todos nos porão até que lhe pagassem quando Pedro Malasarte, que ficara ali por perto, chamou-o a um canto e lhe perguntou:

- Você ficaria satisfeito se o cardeal se encarregasse do pagamento?

- Mas é claro! - exclamou o hospedeiro. - O cardeal é muito rico e homem de palavra, embora não tenha boa cara.

- Pois então fique sossegado - disse Pedro Malasarte. - Onde está o cardeal?

- Subiu para seu quarto, para tirar uma soneca.

Pedro Malasarte foi até o quarto do cardeal e bateu na porta.

- Quem é? - perguntou o gordo cardeal lá de dentro, com voz rouca e a língua enrolando de sono.

- Por favor, Eminência, acuda-nos! - gritou Pedro Malasarte. - O hospedeiro ficou maluco. Está com o diabo no corpo e não há quem o segure! Agora mesmo quer trancafiar no porão um bando de cegos para comê-los vivos!

- Está bem, está bem - respondeu o cardeal. - Mas só me levanto daqui quando acabar de tirar a minha sesta.

Ouvindo isso, Pedro Malasarte foi falar com o hospedeiro.

- Tudo resolvido. O cardeal pagará a conta dos pobres ceguinhos.

Acontece que o hospedeiro ficou meio desconfiado. E mandou a mulher ir falar como cardeal.

- Será que não se pode dormir em paz nesta casa? - trovejou o cardeal quando ela bateu na porta.

- Mas os cegos... - disse a mulher do hospedeiro, timidamente.

- Diga para o seu marido deixar os cegos em paz que depois eu vou acertar contas com ele! - ordenou o cardeal, que só queria dormir, após a lauta refeição.

- Satisfeita com a resposta, a mulher desceu e disse ao hospedeiro o que o cardeal havia dito.

Só então ele deixou os ceguinhos irem embora sossegados e de barriga bem cheia. E com eles foi-se embora Pedro Malasarte, rindo por dentro e pensando:

"Valeu a pena o banho de lama que me deram. Valeu, mesmo! Um farto almoço para mim e doze cegos! E tudo na conta do cardeal!

(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).




REGISTOS DE DOMINGO

NONAGÉSIMO QUINTO DIA TEMPO -  Sol pela manhã. Manhã agradável. CHUVAS DE MARÇO   - 108 milímetros.  SOMBRIO - Vivemos tempo sombrio no que ...