SEXAGÉSIMO SÉTIMO DIA
TEMPO - Sol bom pela manhã.
CHUVA DE ONTEM PELA NOITE - 9 mm.
HUMOR
- Mamãe, mamãe, na escola me chamaram de mentiroso!
- Fique quieto, Juninho, você nem vai à escola ainda! (Da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus - Fevereiro/2026)
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "O grande pintor"
Pedro Malasarte já andara por muitos empregos. Entre outras profissões, fora ajudante de uma célebre pintor. E, enquanto o via trabalhar, ia apendendo a misturar as tintas. Acabou sabendo também pintar alguma coisa.
A fome estava grande e não havia outro recurso. Por isso, mal chegou à cidade, despediu-se do alfaiate e do barbeiro e se dirigiu para o palácio do governador. Pretendia pintar-lhe o retrato e ganhar com isso alguns cobres.
Dois soldados barraram-lhe a entrada:
- Aonde pensa que vai com essa cara de faminto? - pergunto um.
- Sim, aqui não entram mendigos! - declarou o outro.
- Os artistas têm entrada livre onde querem - respondeu Pedro Malasarte, com ares de importância.
Naquele tempo, os pintores, músicos, escultores eram muito considerados. Tinham livre acesso às casas mais ricas. Por isso os soldados passaram a tratar nosso herói com melhores modos.
- Quero falar com o governador - disse ele.
Num instante viu-se na sala do governador, diante do qual se desfez em mil mesuras.
- Tenho a honra de vir oferecer a Vossa Alteza os meus préstimos. Quero pintar seu retrato para a posteridade!
O governador ficou muito satisfeito. Tratou de mandar hospedar Pedro Malasarte no melhor quarto do palácio e que lhe servissem comida e dessem roupas novas.
No dia seguinte, muito contente da vida, Pedro Malasarte voltou a sua presença.
- Meu caro pintor, noto que a boa comida lhe caiu bem no estômago e que a boa roupa lhe caiu bem nos ombros. Está com ótima cara e ainda maior disposição, pelo que vejo!
- Tão bem tratado por Vossa Alteza, não poderia ser de outro modo - respondeu Pedro Malasarte.
- Pois quero que comece hoje mesmo o seu trabalho. Está vendo aquela grande parede branca ali no fundo? Pois nela você vai pintar para a imortalidade a mim e a todas as damas, cavalheiros e oficiais da minha corte. Não quero que falte nenhum. Não poupe dinheiro. Pode ficar aqui o tempo que quiser.
- É coisa de trinta dias - replicou o nosso amigo.
- Mas faço uma exigência - prosseguiu o governador. - Quero que todo mundo fique igualzinho como é, feio ou bonito, gordo ou magro, direito ou aleijado. Senão, mando cortar a sua cabeça como se faz com um frango.
Saindo dali, pensativo, ia passando por um corredor quando alguém o puxou pelo braço. Era o Visconde de Boa Vista, que por sinal era caolho:
- Escute aqui, caro pintor - foi logo ameaçando. - Se não me pintar com boa cara e principalmente com os dois olhos no lugar, o que tenho e o que me falta, corto você em pedacinhos!
- E foi-se embora.
Ainda assustado com aquela ameaça, Pedro Malasarte continuou andando pelo corredor. Pretendia comprar as tintas para começar o seu trabalho.
De repente, a mulher do governador, que parecia uma trouxa, de tão gorda, apareceu-lhe na frente, com um sorriso:
- Ó meu amigo pintor - disse ela. - Vou querer aparecer no quadro magrinha como era aos vinte anos. Senão, faço uma intriga e o governador, meu marido, manda você para o fundo do calabouço, onde não faltam ratos para comer gente desobediente!
E desapareceu.
Suando frio com mais aquela ameaça, Pedro Malasarte continuou a andar até dar de cara com o capitão da guarda, um gigante mal encarado e com dois metros de altura. No meio do rosto, o capitão apresentava uma cicatriz medonha, conseguida combatendo na guerra.
- Então você é o famoso pintor que o governador contratou para fazer o nosso retrato, hein? - foi dizendo o capitão, com um sorriso mau. - Pois fique sabendo que se na minha cara houver o menor sinal desta cicatriz, quando o quadro ficar pronto, jogo você no fosso dos crocodilos!
Nos dias que se seguiram, Pedro Malasarte recebeu muitas outras ameaças, uma pior do que a outra. Todos queriam ficar mais bonitos no quadro do que eram na realidade. Mas aí seria Pedro Malasarte quem ficaria feio, pois o governador lhe aliviaria os ombros do peso da cabeça.
Finalmente, ele pediu ao governador que mandasse fechar o salão onde ficaria o quadro e cobrir a parede a ser pintada com cortinas, para protegê-la da poeira.
Pintaria de memória. Para isso desfilaram à sua frente o governador e toda a sua corte, em trajes de gala, assombrados com a capacidade do artista gravar os seus traços só com um olhar.
E toca a misturar tinta. Durante trinta dias, prazo que pedira, Pedro Malasarte comia e bebia à vontade, quando não estava dentro do salão onde pintava a obra-prima.
Findo o prazo, o governador mandou chamá-lo:
- Então, Malasarte, terminou o quadro?
- Está pronto, Alteza, mas só gostaria de mostrá-lo aos nobres que nele aparecem.
O governador mandou que todos os membros da corte se reunissem para ver a obra-prima. Quando o salão estava cheio, Pedro Malasarte, diante da cortina fechada, disse:
- Senhor governador, senhora governadora, ilustres damas, corajosos nobres e soldados! Somente vossos olhos privilegiados poderão ver as maravilhosas imagens pintadas sobre esta parede, que há trinta dias atrás não passava de uma parede branca e nua. Mas preciso preveni-los de que quem não for de sangue nobre nada verá a não ser a parede, como era antes. Isso porque usei tintas especiais, preparadas por um poderoso feiticeiro amigo meu. Abri bem os vossos olhos e contemplai esta obra-prima!
E, abrindo a cortina, mostrou-lhes a parede tão branca como sempre estivera.
Todos arregalavam os olhos e fingiam que viam, comentando detalhes, pois não queriam passar por plebeus sem sangue nobre.
- Que belo olhar tenho eu, vejam só - dizia o Visconde de Boa Vista, apontando para a parede, onde se via com os dois olhos no lugar, em vez de caolho, como era.
- E eu, então? Como estou esbelta! - exclamava a mulher do governador, vendo-se com o corpo dos vinte anos, em vez da bruaca que era agora.
- E que lindo rosto o meu! - gabava-se o capitão da guarda, que se via sem a feia cicatriz que ganhara na guerra.
Ninguém tinha coragem de dizer que só estava vendo uma parede branca e nua. É que, no fundo, se davam por muito satisfeitos por não terem sido apresentados com seus defeitos.
Mais tarde, o governador chamou Pedro Malasarte a sós:
- Aqui entre nós, seu malandro - foi-lhe dizendo - o que há atrás daquelas cortinas é só a parede branca que havia antes. Percebi isso desde o começo. Mas você foi de uma esperteza tão grande, e eu ri tanto de toda aquela gente fingindo se ver no quadro, que vou lhe pagar da mesma maneira como se você o tivesse pintado. Aqui estão mil moedas. Leve-as e desapareça antes que eu mude de ideia!
No mesmo dia, abandonando tintas e pinceis Pedro Malasarte partiu em busca de outros ares.
Realmente escapara daquele aperto por muito pouco.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
"INTERNET" DE ANTIGAMENTE
Abetarda - Nome vulgar das aves pertencentes ao gênero Otis, da família dos otidídeos, ordem dos gruiformes.
Habitantes do Velho Mundo, têm corpo pesado, pernas altas e fortes, pé com três dedos, bico reto, curto e agudo. Vivem em bandos, habitando de preferência as planícies. São aves de caça, mas difíceis de apanhar, por serem muito cautelosas. Alimentam-se de sementes, frutas, ervas, insetos, sapos, lagartixas, etc. A espécie maior é a Otis tarda, de mais de 1 m de altura e 2,50 m de envergadura, pesando 15 kg. Possui colorido ferrugíneo no dorso, com manchas brancas e pretas, e brancacento no lado inferior; a cabeça e a garganta são cinzentas. O macho apresenta na mandíbula inferior uma barba de penas. É encontrada com maior frequência na Europa Oriental e na Ásia Ocidental e Central. Ocorre ainda, esparsamente, em algumas partes da Alemanha, da França, da Espanha e, até o século passado, também na Inglaterra. Uma espécie bastante menor, a Otis tetrax, de 45 cm de altura, é de colorido ferrugíneo, manchado de preto; o colar e o ventre são brancos. Tem as penas do pescoço eriçadas em forma de gola. Habita os países do Mediterrâneo e o norte da África. Espécies asiáticas, que raramente ocorrem na Europa Oriental, são: Otis macqueemi e Otis undulata. No sul e no leste da África ocorre uma espécie afim, a Choriotis kori, e, na Austrália, a Austrotis australis. (Enciclopédia Brasileira Globo, volume 1)