SEPTUAGÉSIMO QUARTO DIA
TEMPO - Sol e poucas nuvens.
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "O banquete dos cegos"
Saindo daquela cidade, Pedro Malasarte meteu o pé na estrada. Ia alegre da vida, assobiando, quando foi empurrado por um cavaleiro e caiu de comprido na vala cheia de lama ao lado do caminho. Sentado na lama, furioso com as risadas que ouvia ao seu redor, viu passar uma suntuosa comitiva, no meio da qual ia um alto personagem, provido de uma imensa barriga e todo vestido de vermelho. Sua arrogância não tinha limites.
- Quem é essa figura? - perguntou Pedro Malasarte a um camponês que ia passando.
- Então você não sabe? - retrucou o camponês, de olhos arregalados. - É o novo cardeal! Acaba de chegar de Roma e vai morar na nossa cidade!
Positivamente Pedro Malasarte não simpatizara com o cardeal, que se dava tais ares de importância que parecia o próprio papa. E muito menos com a escolta de soldados mal-encarados que o acompanhava.
Levantando-se, tratou de procurar uma hospedaria onde pudesse tomar um banho e lavar as roupas enlameadas.
Chegou bem na hora o almoço. Havia sobre a mesa uma montanha de comida fumegante. E que quitutes!
É que o cardeal, com sua comitiva, havia parado para almoçar ali.
Nesse momento, um grupo de cegos - pelo menos uns doze - apareceu na porta, pedindo comida.
Os soldados já se preparavam para expulsá-los, quando Pedro Malasarte se intrometeu:
- Deixem em paz os ceguinhos, seus brutos. Eles vão sentar e comer à vontade. E quem paga sou eu.
Disse isto baixinho, já com uma ideia na cabeça. Logo serviram as mais finas iguarias aos ceguinhos, que havia muito tempo não enchiam a barriga tão bem.
Enquanto isso, Pedro Malasarte tomava seu banho e se lavava. Depois sentou-se à mesa dos ceguinhos e comeu com eles, rindo e brincando.
Lá pelas tantas, sacudiu algumas moedas para os cegos ouvirem e lhes disse:
- Bem, meus amigos, vou andando. Deixo aqui em cima da mesa o dinheiro para pagarem o nosso bom hospedeiro.
E saiu de fininho, levando as moedas.
Os cegos, por mais que procurassem, não encontravam o dinheiro. E quando o dono da hospedaria apareceu para cobrar pelos excelentes pratos que lhes havia servido, foi um verdadeiro pandemônio. Cada um dos pobres cegos acusava o vizinho de ter embolsado as moedas e ninguém chegava a uma conclusão. O hospedeiro ficou furioso e já se dispunha a trancá-los todos nos porão até que lhe pagassem quando Pedro Malasarte, que ficara ali por perto, chamou-o a um canto e lhe perguntou:
- Você ficaria satisfeito se o cardeal se encarregasse do pagamento?
- Mas é claro! - exclamou o hospedeiro. - O cardeal é muito rico e homem de palavra, embora não tenha boa cara.
- Pois então fique sossegado - disse Pedro Malasarte. - Onde está o cardeal?
- Subiu para seu quarto, para tirar uma soneca.
Pedro Malasarte foi até o quarto do cardeal e bateu na porta.
- Quem é? - perguntou o gordo cardeal lá de dentro, com voz rouca e a língua enrolando de sono.
- Por favor, Eminência, acuda-nos! - gritou Pedro Malasarte. - O hospedeiro ficou maluco. Está com o diabo no corpo e não há quem o segure! Agora mesmo quer trancafiar no porão um bando de cegos para comê-los vivos!
- Está bem, está bem - respondeu o cardeal. - Mas só me levanto daqui quando acabar de tirar a minha sesta.
Ouvindo isso, Pedro Malasarte foi falar com o hospedeiro.
- Tudo resolvido. O cardeal pagará a conta dos pobres ceguinhos.
Acontece que o hospedeiro ficou meio desconfiado. E mandou a mulher ir falar como cardeal.
- Será que não se pode dormir em paz nesta casa? - trovejou o cardeal quando ela bateu na porta.
- Mas os cegos... - disse a mulher do hospedeiro, timidamente.
- Diga para o seu marido deixar os cegos em paz que depois eu vou acertar contas com ele! - ordenou o cardeal, que só queria dormir, após a lauta refeição.
- Satisfeita com a resposta, a mulher desceu e disse ao hospedeiro o que o cardeal havia dito.
Só então ele deixou os ceguinhos irem embora sossegados e de barriga bem cheia. E com eles foi-se embora Pedro Malasarte, rindo por dentro e pensando:
"Valeu a pena o banho de lama que me deram. Valeu, mesmo! Um farto almoço para mim e doze cegos! E tudo na conta do cardeal!
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).