domingo, 29 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

OCTOGÉSIMO OITAVO DIA

TEMPO - Sol pela manhã e nuvens.

HISTÓRIAS ANTIGAS

Um só socó

Aquém, muito aquém daquela serra que não dá pra ver daqui, começavam as margens plácidas da nação dos potiguares.

Hoje, o mangue engole tudo. Só quem anda por lá são são os chama-marés de corpo destamainho e patolas enormes acenando para a vazante. Bichos muito insignificantes que nunca entraram em livro nenhum.

Mas o mundo começava nas brancas areias do Potengi, pode perguntar a quem entende. Era ali onde o bravo Poti, quando encontrava um tempinho, ia brincar de cangapé com os amigos da taba. Claro que ele, o bravo guerreiro, quase não tinha tempo: vivia ocupadíssimo nas páginas alencarinas, matando goiamum a flechada, descangotando tabajara com a força do seu tacape e acompanhando, quem nem um tonto, o cara-pálida Martim. Como se não bastasse, mudou o nome para Felipe Camarão, morreu metido em briga de branco e, bem feito, terminou entrando na História do Brasil de Pedro Calmon.

Centenas de luas depois da vida, paixão e morte de Poti (exatamente duas mil, quatrocentas e doze luas), aquilo lá era o lugar que o caçador Cançado escolhia para matar socós. Nesse dia foi assim:

Ele fez pontaria num bando de socós, atirou no meio deles, enquanto pensava: um só socó pra três socós coçar, seu jogo de quebra língua preferido. Foi pena pra todo lado. Dois socós caíram estrebuchando, epiléticos, agonizantes. Dois outros patinaram na lama, tentando a decolagem, mas de repente ficaram mais pesados do que o ar, desajeitados como um avião pioneiro.

E o caçador vendo tudo e rindo, a espingarda fumegando na mão, sádico que só a peste, pois o desgraçado do socó não tinha serventia nenhuma. Era impossível depená-lo, o couro se despregava todo com um só puxão nas penas. E se ia pra água quente, que ajuda a tirar as penas de qualquer pássaro, parecia que o falecido socó se vingava. Empestava os ares com cheiro de enxofre, de bosta, de peixe ardido. Ninguém comia aquilo.

De repente, um rumor suspeito quebra a doce harmonia da festa. Melhor dizendo: o mato estalou como num filme americano. Cançado olhou pra trás e viu a índia gorda, os peitos ubérrimos, idade indefinida de índia. Foi como um raio fúlgido no seu peito lusitano: tesão à primeira vista, fulminante.

- Hosana! - ele gritou, desarmado, besta, o coração latejando. - Hosana!

A índia desembestou pelo mato, um pouco menos ágil do que as índias de Alencar, mesmo assim ligeira que só a peste. E lá vai o caçador atrás, laço na mão, pega não pega.

Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, seis quilômetros e meio de corrida, ele laçou a índia. Estavam bem perto do Rio Doce, filete de riacho que morre antes de chegar no mar de areias brancas dos antigos potiguares.

 - Hosana! - disse ele, com palmo e meio de língua pra fora.

- Hosana! - ela repetiu, rindo, batendo no meio dos peitos generosos. (O dia das moscas - romance de Nei Leandro de Castro)

UPANEMÊS

Lavar o pescoço: tomar uma dose de cachaça.

SAÚDE

Mastruço - Contra doenças do peito,, bronquite, moléstias dos rins e do estômago; é diurético, é contra o raquitismo; dá ótima salada, tem boa aplicação nos casos de quedas e machucaduras. 

(Dicas de Jaime Brüning)

sábado, 28 de março de 2026

QUE PALAVRA!

Bricabraque

Estabelecimento comercial que compra e vende obras de arte, ferro-velho e objetos usados. (Silveira Bueno).

Velhos objetos de arte, mobílias, roupas, bijuterias etc. Estabelecimento comercial que compra e vende obras de arte e objetos usados; belchior, brechó. Objetos domésticos usados de pouco valor. (Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras).

Conjunto de diversos e velhos objetos de arte ou artesanato, antiguidade etc. Estabelecimento que compra e vende tais objetos. Do fr. bric-à-brac, de formação expressiva. (Antônio Geraldo da Cunha em Dicionário Etimológico Nova Fronteira).

Belchior (ó), o alfarrabista, adelo, sebo (ê), o ferro-velho. (Cândido Jucá Filho, em Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa).

OCTOGÉSIMO SÉTIMO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - Alta cultura

Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
(Odisseia, de Homero)

Homero utiliza uma linguagem de alto nível que só será entendida com o auxílio de estudiosos.

O varão é Ulisses. 
Rasa Ílion santa: arrasa Troia sagrada (Ulisses foi um dos heróis gregos que  combateram contra Troia).
Equóreo ponto: mar.
Baldo: inútil.
Ao claro Hiperônio: do claro deus do sol.
Prole Dial: descendência de Zeus (prole se refere à Musa, do primeiro verso).

CHUVA - A boa chuva de ontem entre a tarde e a noite foi de 16 milímetros. 

sexta-feira, 27 de março de 2026

OCTOGÉSIMO SEXTO DIA

TEMPO - Sol pela manhã, com poucas nuvens. Boa chuva pela tarde.

LINGUAGEM - Calda e cauda

Calda - mistura ou solução de açúcar e água, fervidos.

Cauda - rabo.

Elementar, meus caros!

TRÂNSITO - De periculosidade 

Guiar motos está cada vez mais perigoso, tendo em vista o aumento diário desses veículos e o número de pessoas que têm dificuldades em conduzi-las corretamente.

Ainda que demos total atenção no trânsito e façamos tudo como manda o bom senso e a lei, o risco de acidente torna-se inevitável.

FILOSOFIA - Saber perguntar

Saber perguntar é, muitas vezes, mais difícil do que saber responder.

PROVÉRBIO

As obras são prova do homem.

quinta-feira, 26 de março de 2026

OCTOGÉSIMO QUINTO DIA

TEMPO - Nublado e frio pela manhã.

CHUVA - Reclamávamos ontem pela falta da chuva. Pois não é que ela veio? Na entrada da noite, tivemos bons 20 milímetros.

LINGUAGEM - O texto a seguir foi publicado há mais de cem anos. Mais precisamente em 1900. Não podemos admirar que algumas palavras ou expressões sejam desconhecidas por que caiu no desuso. Mas que é interessante, é. 

Palavra como "alcunha" e expressões como "conhecer de vista e de chapéu" e "sentar-se ao pé de alguém", são desconhecidas de muita gente. O trem, transporte usual daquela época, não falta nos textos de Machado de Assis. Pois vamos ao texto:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele.

- São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”. - "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”. - "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto. (Capítulo 1 de Dom Casmurro, Machado de Assis).

SAÚDE - Mais uma temporada de vacinação contra a influenza.

PROVÉRBIO

As obras hão de ser do mesmo metal das palavras.

quarta-feira, 25 de março de 2026

OCTOGÉSIMO QUARTO DIA

TEMPO - Sol pela manhã.

LINGUAGEM - Cal

Apesar de ser considerada uma palavra masculina na boca de muitas pessoas, não é. 

A cal é a forma correta.

De onde, então vem o equívoco?

Supõe-se que as palavras mal e sal, masculinas, tenham influenciadas as pessoas a pensarem que cal também seja.

CÉU - Ao olhar para o céu, a gente só vê grossas e bonitas nuvens. As chuvas se preparam para vir, mas vêm em pouco volume.

CHUVA - Na entrada da noite. Boa chuva que renderá uns bons milímetros.

PROVÉRBIO

As obras falem e as palavras calem.

terça-feira, 24 de março de 2026

OCTOGÉSIMO TERCEIRO DIA

TEMPO - Sol pela manhã.

LINGUAGEM - Cabina e cabine

Cabina é a forma aportuguesada de cabine, francês.

No Brasil é utilizado mais cabine: aposento, camarote.

PROVÉRBIO

As muitas cautelas ganham às vezes pouco, mas seguram muito.

segunda-feira, 23 de março de 2026

OCTOGÉSIMO SEGUNDO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

CHUVA - Ontem no começo da noite, um pequeno registro: 4 mm.

LINGUAGEM - Cabeleireiro

O profissional do corte de cabelo é cabeleireiro e não outros nomes que são ditos por aí.

MODO DE VIDA 

O cérebro necessita de descanso. Elementar. Apesar de elementar, pouca gente atenta para isso. E o que quase todo mundo faz?

No lugar de descansar o cérebro, ocupa-o com outras atividades mais desgastantes do que as que executamos diariamente.

PROVÉRBIO

As moças hão de andar bem vestidas e os moços fartos.

domingo, 22 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

OCTOGÉSIMO PRIMEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Neblina pela tarde.

LINGUAGEM - Gíria em inglês

To ace a test - Significa desempenhar muito bem em uma prova; tirar um A, ou um 10, como dizemos no Brasil.

Ex: I aced the math test today. Fui muito bem na prova de matemática hoje.

CHUVA - Pequeno registro ontem pela tarde: 4 mm.

LITERATURA - Machado de Assis, numa pitada de humor, escreve crônicas para os jornais da época, lá nos idos de 1861. 

Ao definir o verbo, diz que é uma palavra com que afirmamos outra. E dá exemplos: As ruas do Rio de Janeiro andam imundas porque fiscais não se importam com isso. O luxo é extraordinário porque poucos pagam as suas dívidas. A iluminação a gás não clareia depois de duas horas da noite porque mandam apagar metade dos lampiões. As chuvas alagam a cidade porque as valas estão sempre entupidas.

A crônica de Machado até parece que foi escrita nesta semana. Alguns dos problemas ali denunciados persistem, apesar dos avanços no progresso.

Destaco o alagamento das ruas nas cidades grandes e pequenas.

Quanto à iluminação à gás, era uma forma de iluminação pública naquela época. Não se tem notícia, ou não tenho notícia que tivemos esse tipo de iluminação pública. O que sabemos é que era movido a motor até fins dos anos 60, quando chegou até nós a energia de Paulo Afonso.

HUMOR - Proposta

Um homem contrata um advogado para defendê-lo, mas um amigo o avisa que ele deve oferecer dinheiro para aumentar as chances de sucesso. No dia da audiência, o acusado faz uma proposta  ao advogado.

- Vamos combinar o seguinte: se eu pegar cinco anos de cadeia, vou pagar 10 mil para você; agora, se eu pegar três anos, vou pagar 15 mil. Porém, se eu pegar só um ano, dou 20 mil para você. Aceita?

- Combinado.

No dia seguinte, o advogado vai visitar o seu cliente na prisão.

- Eu consegui só um ano para você. Portanto, sua dívida é de 20 mil. E olhe que tive sorte, pois eles queriam absolvê-lo. (Joana Augusto da Silva - Amparo/ São Paulo - Da Folhinha Sagrado Coração de Jesus)

SAÚDE - A virose ataca com força. A notícia boa é que a onda passará logo.

sábado, 21 de março de 2026

QUE PALAVRA!

Milhardário 

A certa  altura, uma portaria estabeleceu que todos os cidadãos com mais de 65 anos podiam sacar seu dinheiro. Um idoso milhardário, mas com consciência das desigualdades brasileiras, ligou para o Banco Central perguntando se até ele, rico, poderia sacar todo o dinheiro que tinha. (Saga Brasileira - Miriam Leitão)

O texto faz referência ao tempo do Plano Collor, quando ocorreu o denominado "confisco da poupança".

Milhardário é uma das palavras que não encontramos com facilidade em dicionários. No Grande Aurélio, quando consultamos a palavra milhardário, não a encontramos, mas miliardário. Ainda asim, somos direcionados para a palavra bilionário.

E o que é um bilionário? Quem é duas vezes milionário.

Milhardário é uma variante de miliardário: ricaço, bilionário, multimilionário, nababo. (Dicionário das Dificuldades da Língua Portuguesa,  de Cândido Jucá Filho)

OCTOGÉSIMO DIA

TEMPO - Sol bom, forte, poucas nuvens e leve aragem. Neblina e mundão de chuva pela tarde.

LINGUAGEM - Cabeçalho

Cabeçalho é o alto de uma página impressa ou escrita à mão.

Escrito com ç, bem que poderia ser com dois esses (s), mas por questão etimológica é com ç cedilha mesmo.

TRÂNSITO - Andar devagar ou, literalmente falando, correndo em baixa velocidade é tarefa que exige controle emocional para aquele que conduz um transporte. 

A alta velocidade tem deixado muitas pessoas inválidas ou mortas.

LITERATURA - Arte

O conceito de arte ainda está em aberto, mas sabe-se que é o produto e que encerra uma ideia de fazer. Aqui devemos separar coisas tais como a "arte de falar", "arte de viver" e certos ofícios situados mais na área do artesanato, que se supõe seja mais uma técnica. Pela dificuldade de conceituar a Arte, alguns filósofos começaram a desenvolver o que ficou conhecido por "filosofia da Arte", para discutir se a Arte tem seus próprios métodos ou seus próprios objetivos. (Vocabulário Técnico de Literatura - Assis Brasil).

A literatura é, portanto, arte da palavra, utilizando-a esteticamente, no sentido de torná-la bela, culta, criativa.

sexta-feira, 20 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO NONO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - O substantivo "cabeça".

Cabeça é um substantivo feminino quando significa parte do corpo humano. Quando significa o chefe, é substantivo masculino.

SAÚDE - A virosa grassa.

CHUVA - As chuvas escasseiam, como bem previram os profetas da chuva e os estudiosos do clima.

Dia de São José - Por aqui, o dia foi seco. Assim, se se confirmar a seca verde, confirmará também a crença de que se não chove naquele dia, não se tem bom inverno.

Pasto para os brutos - Pelo menos teremos pasto para os brutos, dizem os que trabalham no campo e lutam com bichos.

PROVÉRBIO

As mezinhas todas amargam.

quinta-feira, 19 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO OITAVO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - Linguagem regional

Em que região do país fala-se dessa maneira?

"Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro com a guaiaca enpanzinada de onças de ouro, para parar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.

Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.
 
- Olhe, ali na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo na beira do passo, desencilhei, e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda".


PROVÉRBIO

As más suspeitas destroem as verdades.

quarta-feira, 18 de março de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO SEXTO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã. Ontem tivemos mais uma chuva.

CHUVA DE ONTEM - 10 mm.

LINGUAGEM - Brabo e bravo

As duas palavras são corretas, porém bravo é mais atual e brabo está quase no esquecimento.

SAÚDE - A virose ou viroses voltaram. Voltam sempre, no mesmo período.

PROVÉRBIO

As más novas voam como o pensamento.

domingo, 15 de março de 2026

REGISTOS DE DOMINGO

SEPTUAGÉSIMO QUARTO DIA

TEMPO - Sol e poucas nuvens.

HISTÓRIA ANTIGA

Pedro Malasarte em "O banquete dos cegos"

Saindo daquela cidade, Pedro Malasarte meteu o pé na estrada. Ia alegre da vida, assobiando, quando foi empurrado por um cavaleiro e caiu de comprido na vala cheia de lama ao lado do caminho. Sentado na lama, furioso com as risadas que ouvia ao seu redor, viu passar uma suntuosa comitiva, no meio da qual ia um alto personagem, provido de uma imensa barriga e todo vestido de vermelho. Sua arrogância não tinha limites.

- Quem é essa figura? - perguntou Pedro Malasarte a um camponês que ia passando.

- Então você não sabe? - retrucou o camponês, de olhos arregalados. - É o novo cardeal! Acaba de chegar de Roma e vai morar na nossa cidade!

Positivamente Pedro Malasarte não simpatizara com o cardeal, que se dava tais ares de importância que parecia o próprio papa. E muito menos com a escolta de soldados mal-encarados que o acompanhava.

Levantando-se, tratou de procurar uma hospedaria onde pudesse tomar um banho e lavar as roupas enlameadas. 

Chegou bem na hora o almoço. Havia sobre a mesa uma montanha de comida fumegante. E que quitutes!

É que o cardeal, com sua comitiva, havia parado para almoçar ali. 

Nesse momento, um grupo de cegos - pelo menos uns doze - apareceu na porta, pedindo comida.

Os soldados já se preparavam para expulsá-los, quando Pedro Malasarte se intrometeu:

- Deixem em paz os ceguinhos, seus brutos. Eles vão sentar e comer à vontade. E quem paga sou eu.

Disse isto baixinho, já com uma ideia na cabeça. Logo serviram as mais finas iguarias aos ceguinhos, que havia muito tempo não enchiam a barriga tão bem.

Enquanto isso, Pedro Malasarte tomava seu banho e se lavava. Depois sentou-se à mesa dos ceguinhos e comeu com eles, rindo e brincando. 

Lá pelas tantas, sacudiu algumas moedas para os cegos ouvirem e lhes disse:

- Bem, meus amigos, vou andando. Deixo aqui em cima da mesa o dinheiro para pagarem o nosso bom hospedeiro.

E saiu de fininho, levando as moedas. 

Os cegos, por mais que procurassem, não encontravam o dinheiro. E quando o dono da hospedaria apareceu para cobrar pelos excelentes pratos que lhes havia servido, foi um verdadeiro pandemônio. Cada um dos pobres cegos acusava o vizinho de ter embolsado as moedas e ninguém chegava a uma conclusão. O hospedeiro ficou furioso e já se dispunha a trancá-los todos nos porão até que lhe pagassem quando Pedro Malasarte, que ficara ali por perto, chamou-o a um canto e lhe perguntou:

- Você ficaria satisfeito se o cardeal se encarregasse do pagamento?

- Mas é claro! - exclamou o hospedeiro. - O cardeal é muito rico e homem de palavra, embora não tenha boa cara.

- Pois então fique sossegado - disse Pedro Malasarte. - Onde está o cardeal?

- Subiu para seu quarto, para tirar uma soneca.

Pedro Malasarte foi até o quarto do cardeal e bateu na porta.

- Quem é? - perguntou o gordo cardeal lá de dentro, com voz rouca e a língua enrolando de sono.

- Por favor, Eminência, acuda-nos! - gritou Pedro Malasarte. - O hospedeiro ficou maluco. Está com o diabo no corpo e não há quem o segure! Agora mesmo quer trancafiar no porão um bando de cegos para comê-los vivos!

- Está bem, está bem - respondeu o cardeal. - Mas só me levanto daqui quando acabar de tirar a minha sesta.

Ouvindo isso, Pedro Malasarte foi falar com o hospedeiro.

- Tudo resolvido. O cardeal pagará a conta dos pobres ceguinhos.

Acontece que o hospedeiro ficou meio desconfiado. E mandou a mulher ir falar como cardeal.

- Será que não se pode dormir em paz nesta casa? - trovejou o cardeal quando ela bateu na porta.

- Mas os cegos... - disse a mulher do hospedeiro, timidamente.

- Diga para o seu marido deixar os cegos em paz que depois eu vou acertar contas com ele! - ordenou o cardeal, que só queria dormir, após a lauta refeição.

- Satisfeita com a resposta, a mulher desceu e disse ao hospedeiro o que o cardeal havia dito.

Só então ele deixou os ceguinhos irem embora sossegados e de barriga bem cheia. E com eles foi-se embora Pedro Malasarte, rindo por dentro e pensando:

"Valeu a pena o banho de lama que me deram. Valeu, mesmo! Um farto almoço para mim e doze cegos! E tudo na conta do cardeal!

(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).




sábado, 14 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO TERCEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - As informações implícitas

Observe a seguinte frase:

Fiz faculdade, mas aprendi algumas coisas.

Nela, o falante transmite duas informações de maneira explícita:

- Que ele frequentou um curso superior;
- Que ele aprendeu algumas coisas.

Ao ligar essas duas informações com um "mas" comunica também de modo implícito sua crítica ao sistema de ensino superior, pois a frase passa a transmitir a ideia de que nas faculdades não se aprende nada. Um dos aspectos mais intrigantes da leitura de um texto é a verificação de que ele pode dizer coisas que parece não estar dizendo: além das informações explicitamente enunciadas, existem outras que ficam subentendidas ou pressupostas. Para realizar uma leitura eficiente, o leitor deve captar tanto os dados explícitos quanto os implícitos.

Leitor perspicaz é aquele que consegue ler nas entrelinhas. Caso contrário, ele pode passar por cima de significados importantes e decisivos ou - o que é pior - pode concordar com coisas que rejeitaria se as percebesse. (Para entender o texto - Platão & Fiorin)

QUE É FEITO DE? Quêde as chuvas? Quedê as chuvas? Cadê as chuvas?

Choveu por aqui, mas não aquela pegada de inverno que faz a gente vê que está no período chuvoso.

QUE PALAVRA!

Renque

Fileira, série. (Aurélio)

Ala, fila, série, fileira, ordem de coisas, linha. (Minidicionário da Língua Portuguesa Silveira Bueno, com etimologia)

Série de pessoas ou objetos dispostos numa mesma linha; ala, fileira, alinhamento: renque de soldados; renque de árvores. (Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras)

Caminhava com cautela, olhando furtivamente para os lados e de vez em quando para trás. À esquerda da alameda um largo quadrilátero de relva descia em suave rampa na direção dum renque de salgueiros. (Noite, de Érico Veríssimo) 



sexta-feira, 13 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO SEGUNDO DIA

TEMPO - Nublado na manhã.

LINGUAGEM - Palavras com base no latim

Elementos de composição:

insula - ilha

loquo - que fala

luce - luz

flama - chama

ignis - fogo

As palavras  em língua portuguesa acima têm tudo a ver com os radicais latinos. 

Peguemos "loquo" como exemplo. Ventríloquo, eloquente, loquaz, loquacidade.

CRÔNICA - Da calma

A serenidade das plantas e animais - seres bem diferentes dos humanos - é coisa de se espantar. Assim mesmo, eles reagem, muitas vezes, quando são provocados.

Aquelas águas que não puderam fluir livremente, não tiveram outra escolha a não ser derrubar paredes do rio, árvores e até postes. 

- Saiam da frente porque quero passar!

E assim, os humanos, supermodernos, superinteligentes, supercompetentes, supertudo, ficaram apavorados com a situação e torceram para que as chuvas diminuíssem e o rio deixasse de aumentar seu volume.

E elas diminuíram e, só assim, as águas, de bravas, voltaram à sua mansidão como sempre em tempos de calmaria.


PROVÉRBIO

As coisas mais feias se querem mais louvadas.

quinta-feira, 12 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO PRIMEIRO DIA

TEMPO - Nublado pela manhã.

LINGUAGEM - Bocal/bucal

Elementar a diferença:

Bocal é uma peça móvel que serve de embocadura a instrumentos de sopro. Há também o bocal de lâmpada.

Bucal é relativo à boca.


PROVÉRBIO

As leis hão de seguir a razão e não a razão as leis.

quarta-feira, 11 de março de 2026

SEPTUAGÉSIMO DIA

TEMPO - Sol forte pela manhã.

LINGUAGEM - Bijuteria

Há pessoas que escrevem de outra maneira, mas a palavra, que é aportuguesada do francês, é escrita assim mesmo.

PROVÉRBIO

As leis fizeram-se para castigar maus e não para destruir bons.

terça-feira, 10 de março de 2026

SEXAGÉSIMO NONO DIA

TEMPO - Sol forte pela manhã.

LINGUAGEM - Línguas vivas

As línguas vivas, segundo Alpheu Tersariol, são aquelas em que os indivíduos de uma nação utilizam de seu idioma como instrumento de uso quotidiano que serve de veículo de comunicação entre si. São línguas adotadas oficialmente por um povo. Exemplos: português, espanhol, italiano, etc.

LER E ESCREVER - Devemos evitar apenas escrever e apenas ler, pois se só escrevemos esgotaremos nossas forças (falo do trabalho escritura]0, enquanto somente escrever fará com que se diluam. É necessário passar de um exercício para outro com justa medida, a fim de que a escritura organize tudo que foi recolhido na leitura. (Sêneca, "Aprendendo a viver", em cartas a Lucílio) 

Isso se aplica à escrita de qualquer texto, seja tarefa escolar ou não.

PROVÉRBIO

As fracas conversações enfraquecem o forte.

segunda-feira, 9 de março de 2026

SEXAGÉSIMO OITAVO DIA

TEMPO - Sol bom durante o dia.

LINGUAGEM - Influência do latim

De vinum (latim), temos wine (inglês) e wein (alemão)

De strada (latim), temos street (inglês) e Strasse (alemão)

De genu (latim), temos knee (inglês) e Knie (alemão)


PROVÉRBIO

As desventuras que hão de ser logo trazem caminho.

PROVÉRBIO

As obras sem esperança são como corpo sem alma.