domingo, 5 de março de 2023

ENTRETENDO - EDIÇÃO DE DOMINGO

ENCHENTES

Ruas fizeram-se lagoas, como sabes, e o trânsito ficou interrompido em muitas delas; mas isto não é propriamente noticiário que haja de dizer e repetir o que leste nas folhas da semana, - não somente daqui, mas de outras cidades e vilas interiores. 

Pior que tudo, porém, se a tradição não mente, foram as águas do monte, assim chamadas por terem feito desabar parte do morro do Castelo. Sabes que essas águas caíram em 1811 e duraram sete dias deste mês de fevereiro. Parece que o nosso século, nascido em água, não quer morrer sem ela. Não menos parece que o morro do Castelo, cansado de esperar que o arrasem, segundo velhos planos, está resoluto a prosseguir e acabar a obra de 1811. Naquele ano chegaram a andar canoas pelas ruas; assim se comprou e vendeu, assim se fizeram visitas e salvamentos. Também é possível, como ainda viviam náiades, que se fossem buscar às fontes. Talvez até se pescassem amores.

Se remontarem ainda uns sessenta anos, terás o dilúvio de 1756, que uniu  cidade ao mar e durou três longos dias de vinte e quatro horas. Mais que em 1811, as canos serviram os habitantes, e o perigo ensinou a estes a navegação. Uma das canos trouxe da rua da Saúde (antiga Valongo) até à igreja do Rosário não menos de sete pessoas. Naturalmente não vieram a passeio, mas à reza, como toda a gente, que era então pouca e devota. Caíram casas dessa vez;  população refugiou-se ao pé dos altares. Afinal, como a cidade não tinha ainda contados os seus dias, fecharam-se as cataratas do céu; as águas baixaram  e os pés voltaram a pisar este nosso chão amado.

Os trechos acima foram extraídos do livro "A Semana", de Machado de Assis. São crônicas de 1895 a  1900 que retratam a cidade do Rio de Janeiro do tempo do Império e já entrando a República. Foram crônicas publicadas na Gazeta de Notícias.

Alguns trechos dão a impressão de que foram escritos na semana que passou, principalmente o que fala do trânsito interrompido, as ruas que se fizeram lagoas.

O PROBLEMA É VELHO - O problema é velho e persiste não somente no Brasil, mas em grandes partes do mundo. Não somente em cidades grandes, mas também em pequenas, como bem frisou Machado. 

ALÉM DE VELHO- O problema envelheceu, mas não nasceu um cristão que conseguisse resolvê-lo até agora.

PARADAS - Paradas estarão grande parte das escolas da rede estadual do RN a partir de terça-feira. 

SEM PISO NÃO PISO - O jogo de palavras "sem piso não piso na escola" outrora alardeado aos quatro ventos, está se repetindo, mesmo não sendo dito explicitamente.

NÃO TENHAIS MEDO - Não tenhais medo de pedir "um copo d'água". Não correrá nenhum risco de os interlocutores entenderem que o copo é feito de água. O que ocorre é uma metonímia: continente pelo conteúdo.

MINHA CIDADE - Minha cidade, que não é minha, tem uma parecência com muitas outras desse mundão. Em "Cazuza", o maranhense Viriato Corrêa descreve sua cidade na pele de seu personagem Cazuza. Uma das lembranças quando descreve sua pequena cidade me faz lembrar de um detalhe que também havia em Upanema na Upanema dos anos passados ou pelo menos até os 60:

Meu pai tinha umas duzentas cabeças de gado no campo, uma engenhoca de moer cana, uma máquina de descaroçar algodão e uma casa de negócios, em que vinham comprar moradores até de quinze ou vinte léguas distantes.

Não havia no lugarejo ninguém mais importante do que meu pai. Era tudo: autoridade policial, juiz, conselheiro, até médico.

Sobre a comparação do pai do personagem e o meu, nada há o que comparar, mas destaco, como muitas vezes já escrevi por aqui neste veículo de comunicação, a "máquina de descaroçar algodão" ou bolandeira, como ficou conhecida. Posso destacar uma coincidência, sim, a de que viemos morar numa casa em que havia funcionado uma máquina dessas, situada na Rua Francisco Agostinho, 127, onde hoje funciona uma barbearia.


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