TRIGÉSIMO NONO DIA
TEMPO - Frio. Nublado pela manhã e tarde. Pela tarde, neblina.
CHUVA DE ONTEM À NOITE: 9mm.
HISTÓRIAS ANTIGAS
Pedro Malasarte em "A moeda do rei"
Um dia chegou um à cidade. Sim, senhor, naquele tempo já havia circos. Não como os de hoje, é claro, com elefantes, tigres e leões. Os circos de antigamente consistiam em um pequeno grupo de artistas, chamados saltimbancos, que faziam toda sorte de proezas, viajando de cidade em cidade nas suas pobres carroças.
Porém, quando eles chegavam, era uma sensação. Imaginem que naquele tempo não havia cinema, rádio ou televisão. As pessoas se distraíam contando histórias junto da lareira, à noite. Por isso o circo era uma grande novidade.
Todo mundo ia ver o circo. Ricos e pobres, nobres e plebeus. Isso mesmo! Eu não lhes disse? O mundo naquele tempo era dividido em reinos grandes e pequenos, governados por grandes e pequenos reis. Havia príncipes e princesas, condes e barões.
Foram todos ver o circo, armado na praça principal da cidade. Todos, menos uma pessoa: o próprio rei, que tinha ido visitar um primo seu, rei também, em uma terra distante, e que não voltara ainda.
Como era natural, Nicolau e Serafina pegaram o filho pela mão e lá se foram ver o circo. Pedro Malasarte já tinha os seus sete aninhos e era levado como quê.
O circo, para ele, foi uma verdadeira escola de traquinagem. Apreciando as trapalhadas dos saltimbancos, que andavam na corda bamba, engoliam espadas, faziam mágicas e davam saltos mortais, o garoto prometia a si mesmo que tinha de aprender a fazer aquilo tudo.
De volta para casa, Pedro Malasarte não dormiu naquela noite. Pensando, pensando...
No dia seguinte, bem cedo, pulou da cama e correu para o fundo do quintal. Ali armou um verdadeiro picadeiro, com o que achou à mão. E toca a brincar de circo.
Começou com a corda bamba. Amarrou uma corda entre duas árvores, arranjou uma vara para se equilibrar e lá se foi... direitinho para o chão, num tombo que não tinha mais tamanho. Mas o garoto era teimoso e tanto fez que acabou conseguindo andar um bom pedaço na corda até que esta rebentou e ele tornou a se esborrachar no chão.
Mal sabia ele que alguém estava rindo a valer das suas travessuras.
Depois foi a vez das mágicas. Atrapalhou-se um pouco no princípio, mas daí a algum tempo sabia fazer duas ou três coisinhas. Só que as coisas sumiam de vez, quando ele as enfiava para dentro da roupa, ou os pombos saíam voando quando ele queria que entrassem no velho chapéu que lhe servia de cartola.
Desistindo das mágicas, Pedro Malasarte pensou em engolir espadas ou comer fogo. Mas espadas e fogo deviam ter um gosto horrível.
Quer saber de uma coisa? Era melhor dar algumas cambalhotas e saltos mortais.
E foi o que ele fez, sempre sem saber que alguém por trás da sua cerca, meio escondido entre os galhos de uma árvore apreciando aquilo tudo.
Pula daqui, cai ali, escorrega mais adiante, quase torce o pescoço, afinal Pedro Malasarte, suando em bicas, se deu por satisfeito, quando viu que sabia dar dois ou três saltos muito bem dados. E ao dar o último salto, já se imaginando no picadeiro de um circo de verdade, pensava no povo batendo palmas, entusiasmado.
Era só imaginação? Ou ouvia palmas, mesmo?
Por cima da cerca, um homem alto e de ar bondoso, olhando para ele, sorria e batia palmas.
Encabulado, Pedro Malasarte quis correr, mas o estranho lhe falou:
- Meu filho, você me proporcionou duas horas do mais puro divertimento. Nunca ri tanto em minha vida. Mas não fique encabulado. Para dizer a verdade, nunca vi ninguém tão teimoso em minha vida e com tanta vontade de aprender. Olhe, pode ser que eu me engane, mas o mundo ainda vai ouvir falar muito de você.
- Quem... quem é o senhor? - perguntou o garoto, já sem medo, pois simpatizara com seu primeiro admirador.
- Sou o rei Gustavo, meu filho. Cheguei hoje, disfarçado em camponês, para ver como vive o meu povo. Perdi o circo, que passou ontem pela cidade, mas foi o mesmo que vê-lo: você deu um espetáculo completo. E quer saber do que mais? Tome esta linda moeda de cobre pelo seu trabalho.
E atirou ao garoto uma moedinha.
- Agora os camponeses querem se fazer passar pelo rei - disse Pedro Malasarte, olhando para a pequena moeda.
- Como? - indagou o estranho que se dizia rei.
- É mesmo - reafirmou o garoto. - Um rei de verdade nunca daria a um artista só uma moeda de cobre.
O rei disfarçado em camponês coçou a cabeça.
- Tem razão, meu filho. Tome esta moeda de prata.
Pedro Malasarte apanhou a moeda que o rei lhe atirara e foi devolvê-la a ele.
- Perdão, senhor, mas não posso aceitar.
- Não pode aceitar?
- Meus pais não são nada bobos. Se eu lhes disser que apareceu um desconhecido por cima da cerca, dizendo que era o rei, e que me deu uma moeda de pra, vou levar é uma bruta surra de vara de marmelo. Não vão acreditar. Vão pensar é que roubei a moeda.
Vendo que estava lidando com um garoto mais esperto do que uma raposa, o Rei Gustavo meteu a mão em sua bolsa e tirou de dentro dela a mais reluzente moeda de ouro.
- Muito bem, meu menino, você venceu. Ao verem esta linda moeda de ouro, seus pais não poderão deixar de acreditar que o rei esteve aqui em pessoa e aplaudiu um pequeno artista. E mais: esta moeda tem o meu retrato, se é que você ainda duvida que eu sou eu.
Pedro Malasarte agarrou a moeda, olhou o retrato nela gravado e viu que estava falando com o rei em pessoa. Abriu a boca para agradecer, mas pondo um dedo sobre os lábios para lhe pedir silêncio, o soberano afastou-se dizendo:
- Fique com a moeda de cobre pelo seu esforço, com a de prata pela sua honestidade e com a de ouro pela sua esperteza. E, quando quiser me ver no palácio, basta dizer o seu nome ao guarda da entrada. Por falar nisso, como é o seu nome?
- Pedro Malasarte, Majestade.
Pedro Malasarte?...Acho que seremos bons amigos, meu filho - disse o rei, já de longe, acenando.
O garoto ficou olhando por cima da cerca, boquiaberto, até aquele personagem, usando as roupas modestas de um lavrador, desaparecer ao longe, em direção ao palácio real. (Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte" - organizado por Sérgio Augusto Teixeira)
INTERNET DE ANTIGAMENTE
Abacaxis - Rio do Estado do Amazonas, nasce perto do limite dos Estados do Pará e Mato Grosso e deságua no Paraná-Mirim; comprimento: 300km. (Da Grande Enciclopédia Larousse Cultural)
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