segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUADRAGÉSIMO SÉTIMO DIA

TEMPO - 

CARNAVAL

O carnaval dos animais - As ursas

O profeta Eliseu está a caminho de Betel. O dia é quente. 

Insetos zumbem no mato. O profeta marcha em passo acelerado. Tem missão importante, em Betel. 

De repente, muitos rapazinhos correm-lhe no encalço, gritando:

– Sobe, sobe, calvo! Sobe, calvo! 

Volta-se Eliseu e amaldiçoa-os em nome do Senhor; pouco depois, saem da mata duas grandes ursas e devoram 42 meninos: doze a menor, trinta a maior. 

A ursa menor tem digestão ativa; os meninos que caem em seu estômago são atacados por fortes ácidos, solubilizados, reduzidos a partículas menores. Somem-se. 

O mesmo não acontece aos trinta meninos restantes. Descendo pelo esôfago da grande ursa, caem no enorme estômago. Ali ficam. A princípio, transidos de medo, abraçados uns aos outros, mal conseguem respirar; depois, os menores 27começam a chorar e a se lamentar, e seus gritos ecoam lugubremente no amplo recinto. “Ai de nós! Ai de nós!” 

Finalmente, o mais velho acende uma luz e eles se veem num lugar semelhante a uma caverna, de cujas paredes anfractuosas escorrem gotas de um suco viscoso. O chão está juncado de resíduos semiapodrecidos de antigas presas: crânios de bebês, pernas de meninas. “Ai de nós!” – gemem. – “Vamos morrer!” 

Passa o tempo e, como não morrem, se animam. Conversam, riem: fazem brincadeira, pulam, correm, jogam-se detritos e restos de alimentos. 

Quando cansam, sentam e falam sério. Organizam-se, traçam planos. 

O tempo passa. Crescem, mas não muito; o espaço confinado não permite. Tornam-se curiosa raça de anões, de membros curtos e grandes cabeças, onde brilham olhos semelhantes a faróis, sempre a perscrutar a escuridão das entranhas. E ali fazem a sua cidadezinha, com casinhas muito bonitinhas, pintadas de branco. A escolinha. 

A prefeiturazinha. O hospitalzinho. E são felizes. 

Esquecem do passado. Restam vagas lembranças, que com o tempo adquirem contornos místicos.

Rezam: “Grandes Ursas, que estais no firmamento...”. Escolhem um sacerdote – o Grande Profeta, homem de cabeça raspada e olhar terrível; uma vez por ano flagela os habitantes com o Chicote Sagrado. Fé e trabalho, exige. O povo, laborioso, corresponde. Os celeirinhos transbordam de comidinhas, as fabricazinhas produzem milhares de belas coisinhas.

Passa o tempo. Surge uma nova geração. Depois de anos de felicidade, os habitantes se inquietam: por um estranho atavismo, as crianças nascem com longos braços e pernas, cabeça bem proporcionada e meigos olhos castanhos. A cada parto, intranquilidade. Murmura-se: “Se eles crescerem demais, não haverá lugar para nós”. Cogita-se de planificar os nascimentos. O Governinho pensa em consultar o Grande Profeta sobre a conveniência de executar os bebês tão logo nasçam. Discussões infinitas se sucedem. 

Passa o tempo. As crianças crescem e se tornam um bando de poderosos rapazes. Muito maiores que os pais, ninguém os contém. Invadem os cineminhas, as igrejinhas, os clubinhos. Não respeitam a polícia. Vagueiam pelas estradinhas. 

Um dia, o Grande Profeta está a caminho de sua mansãozinha, quando os rapazes o avistam. Imediatamente, correm atrás dele, gritando:

– Sobe, calvo! Sobe, calvo! 

Volta-se o Profeta e os amaldiçoa em nome do Senhor. Pouco depois, surgem duas ursas e devoram os meninos: quarenta e dois. 

Doze são engolidos pela ursa menor e destruídos. Mas trinta descem pelo esôfago da ursa maior e chegam ao estômago – grande cavidade, onde reina a mais negra escuridão. E ali ficam chorando e se lamentando: “Ai de nós! Ai de nós!” 

Finalmente, acendem uma luz. 

LINGUAGEM  

Despercebido e desapercebido

Despercebido: não notado.

Desapercebido: desprovido, despreparado.

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