NONAGÉSIMO QUINTO DIA
TEMPO - Sol pela manhã. Manhã agradável.
CHUVAS DE MARÇO - 108 milímetros.
SOMBRIO - Vivemos tempo sombrio no que se refere às chuvas até agora. Menos de trezentos milímetros em três meses.
PORÉM - Porém abril e maio podem superar e chover bastante.
UPANEMÊS - Olha o dedim! (ê) - Usado nas negativas. Quando queremos discordar de alguém diante de alguma afirmativa.
PROVÉRBIO DE LÚLIO - A maldade do príncipe faz muito mal à lealdade do povo.
APRENDENDO A VIVER - Alcançarás a suma sabedoria se fechares os ouvidos, mas fechá-los com um pouco de cera não é suficiente. É necessário que seja um tampo mais eficaz do que aquele que, segundo contam, foi usado por Ulisses e seus companheiros. A voz que ele temia era sedutora, mas não inteiramente. Porém, essa que devemos temer agora não ressoa de um único lugar, mas de todo canto da terra. Não há um lugar único suspeito por seus insidiosos prazeres, mas sim todas as cidades. Torna-te surdo inclusive com as pessoas que te amam muito, pois, mesmo com as melhores intenções, te desejam o mal. (Aprendendo a viver, de Sêneca - Conselhos ao amigo Lucílio).
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "Ai que dor de dente"
Cansado de andar, Pedro Malasarte chegou a uma grande cidade. Já haviam se passado dois dias desde que se banqueteara com os cegos e seu estômago dava horas.
Para piorar ainda mais sua situação, estava com uma dor de dentes que mal podia suportar.
Mas não tinha dinheiro nem para pagar o dentista - que naquele tempo era o barbeiro - nem para comer. Gastara as últimas moedas no caminho, comprando um burrico para uma pobre velha que também ia para a cidade mas mal podia andar.
Ia mergulhado em tristes pensamentos quando passou na porta de uma padaria. Acabava de sair uma fornada e o cheiro de pão enchia o ar.
Pedro Malasarte olhou para dentro e viu toda espécie de pães e bolos.
Ficou com água na boca.
O dono da padaria estava na porta, com seu avental branco, e parecia ter o rei na barriga. Em tom de mofa, vendo a cara de Pedro Malasarte, perguntou-lhe:
- Quantos pães e doces seriam necessários para matar a sua fome, hein?
Nosso herói respondeu sem hesitar:
- Puxa, aposto que comeria uns cem...
- Ora, ora! - exclamou o padeiro, que adorava fazer apostas. - Que posso lhe fazer se não conseguir comer mesmo cem pães doces?
- Amigo padeiro, já deve ter percebido que não tenho comigo um só tostão. Mas para lhe mostrar que sou mesmo capaz de fazer o que estou dizendo, pode mandar me arrancar um dente de quatro raízes se não comer cem pães e doces!
Arrancar dente sempre foi coisa de meter medo. Divertido com a aposta, o dono da padaria mandou Pedro Malasarte entrar e serviu-lhe os mais finos produtos do seu estabelecimento. Pãezinhos de queijo e broas, bolos, doces, marias-moles e tudo o mais.
Nosso herói estava mesmo com uma fome de lobo e conseguiu comer, sem maior esforço, uns quatro pães, duas ou três broas, algumas roscas e quatro ou cinco doces.
Dando-se por satisfeito, virou-se para o padeiro:
- É... Não é que não consigo nem olhar mais para pães e doces?
Prontamente o outro o agarrou pelo braço e levou-o ao barbeiro:
- Amigo barbeiro, trate de arrancar por minha conta um dente de quatro raízes deste malandro!
- Este aqui, este aqui - apontou Pedro Malasarte, mais que depressa, rindo por dentro.
O barbeiro arrancou-lhe o dente dolorido em três tempos. Não doeu tanto assim, mas Malasarte fez muitas caretas.
- Está vendo só no que dá fazer apostas? - disse o padeiro, com ar triunfante. - Devia ter visto logo que não poderia comer tanto assim.
- Pois agora é que vou comer muito mais! - retrucou Pedro Malasarte.
E foi-se embora assobiando, com a barriga cheia e livre do dente que tanto o incomodava, sem gastar um tostão.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
MERCADO - Oferta e procura
Oferta - É a quantidade de mercadorias ou bens produzidos e oferecidos para o mercado, a preços diferentes num determinado período de tempo. É enfim, a relação existente entre os preços do mercado e as quantidades que os produtores estão dispostos a oferecer.
Procura - É a quantidade de bens ou mercadorias que os consumidores pretendem e estão aptos a comprar, a vários preços, durante um determinado espaço de tempo. É a relação entre os preços e a quantidade de bens adquiridos no mercado pelos consumidores. (Elementos Básicos da Economia Rural, de Paulo Pereira dos Santos)
PLANTA MEDICINAL - Alho
Bronquite, gripe (alho com leite), evita congestão, ajuda baixar a pressão usando de 20 a 30 gotas de tintura. Combate os vermes, tomado com leite ou limão; febrífugo, contra diabete, alho com azeite alivia dores de ouvido. Combate areias e pedras da bexiga. É bom colocar sobre cortes e quando se pisa em prego, é desinfectante. ("Cuide de sua saúde", de Jaime Brüning)
"INTERNET" DE ANTIGAMENTE
Abeto - Nome vulgar de diversas espécies de árvores coníferas da família das pináceas, encontradas nas montanhas das regiões temperadas do hemisfério norte. Tem porte alto, ereto, de forma mais ou menos piramidal. Folhas sempre verdes e flores quase invisíveis: os frutos são cones ou pinhas de forma cilíndrica, de tamanho variável. Algumas espécies são estimadas pela sua madeira, outras pela sua resina, e a sua casca contém de 7 a 13% de tanino. Os abetos verdadeiros pertencem ao gênero Abies, que se distinguem dos abetos falsos, gênero Picea, pelos cones eretos e folhas persistentes. A espécie Abies pectinata (abeto comum ou branco), atinge cerca de 65 m de altura e tem a casca prateada, e de cujo lenho extrai-se a terebintina. É encontrada na Europa Central e Meridional e na Ásia Menor. A Abies balsamea, que ocorre na parte nororiental da América do Note, assemelha-se às espécies europeias, mas delas difere por ter as folhas mais curtas e mais abundantes; sua casca fornece o afamado balsamo-do-canadá. Atinge 15 m de altura e foi introduzida na Europa. A Picea excelsa (abeto roxo), atinge cerca de 50 m de altura e forma extensos bosques na Europa Central, na Escandinávia, na Rússia e na Sibéria. A Picea rubra é a principal fonte de polpa de papel na América do Norte. Entre as espécies ornamentais figura a Picea abies, da Escandinávia. Há algumas espécies introduzidas no Brasil e cultivadas como ornamentais, como a Abies concolor, de 45 metros de altura e a Abies commutata, de 30 m de altura, ambas oriundas da América do Norte. (Enciclopédia Brasileira Globo, volume 1).
DEU NO JORNAL
Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro
24 de abril de 1892 - Machado de Assis
Na segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros. Sou como as atrizes, que já não fazem benefício, mas festa artística. A coisa é a mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em número, seja em preço; o resto, comédia, drama, opereta, uma polca entre dois atos, uma poesia, vários ramalhetes, lampiões fora, e os colegas em grande gala, oferecendo em cena o retrato à beneficiada.
Tudo pede certa elevação. Conheci dois velhos estimáveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa artística. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por serviços em relação à guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da reserva, a que prestava bons serviços. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: “Caro major!” -”Pronto, comendador!” — Variavam às vezes: — “Caro comendador!” -”Aí vou, major”. Tudo pede certa elevação.
Para não ir mais longe, Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A prisão do heroico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra coisa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração da glória. Merecem, decerto, a nossa estimação aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.
Um dos oradores do dia 21 observou que se a Inconfidência tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, não para o alferes. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Oceânides diante de Prometeu encadeado. Relede Ésquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das coisas. Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu narrando os seus crimes às ninfas amadas: “Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as artes”. Foi o que nos fez Tiradentes.
Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma coisa a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião-dentista. Era o mesmo herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.
Há muitos anos, um rapaz — por sinal que bonito — estava para casar com uma linda moça —, a aprazimento de todos, pais e mães, irmãos, tios e primos. Mas o noivo demorava o consórcio; adiava de um sábado para outro, depois quinta-feira, logo terça, mais tarde sábado; — dois meses de espera. Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou à mulher os seus receios. Talvez o rapaz não quisesse casar. A sogra, que antes de o ser já era, pegou do pau moral, e foi ter com o esquisito genro. Que histórias eram aquelas de adiamentos?
— Perdão, minha senhora, é uma nobre e alta razão; espero apenas...
— Apenas...?
— Apenas o meu título de agrimensor.
— De agrimensor? Mas quem lhe diz que minha filha precisa do seu ofício para comer? Case, que não morrerá de fome; o título virá depois.
— Perdão, mas não é pelo título de agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. Lá na roça dá-se ao agrimensor, por cortesia, o título de doutor, e eu quisera casar já doutor...
Sogra, sogro, noiva, parentes, todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moço. Em boa hora o fizeram. Dali a três meses recebia o noivo os títulos de agrimensor, de doutor e de marido.
Daqui ao caso eleitoral é menos que um passo; mas, não entendendo eu de política, ignoro se a ausência de tão grande parte do eleitorado na eleição do dia 20 quer dizer descrença, como afirmam uns, ou abstenção como outros juram. A descrença é fenômeno alheio à vontade do eleitor: a abstenção é propósito. Há quem não veja em tudo isto mais que ignorância do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patrícios. O que sei, é que fui à minha seção para votar, mas achei a porta fechada e a urna na rua, com os livros e ofícios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os mesários não tinham sido avisados e os eleitores eram cinco. Discutimos a questão de saber o que é que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o problema, a charada, a adivinhação de segunda-feira. Dividiram-se as opiniões; uns foram pelo ovo outros pela galinha; o próprio galo teve um voto. Os candidatos é que não tiveram nem um, porque os mesários não vieram e bateram dez horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:
Sara, belle d'indolence,
Se balance
Dans un hamac...
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