SEXAGÉSIMO DIA
TEMPO - Nublado e frio pela manhã.
HUMOR
A professora fala pra Joãozinho:
- Diga três partes do corpo com a letra "z".
Ele respondeu:
- Zóio, zoreia e zovido.
Aí a professora fala:
- Adivinhe a sua nota! Também começa com "z".
- Ah, deve ser um zoito.
(Da Folhinha do Sagrado Coração de Jesus - Fevereiro/2026)
HISTÓRIA ANTIGA
Pedro Malasarte em "Malasarte pão e vinho"
Uma vez, caminhava Pedro Malasarte pela estrada, rumo à cidade, onde ia procurar emprego. Lá pelas tantas, encontrou o barbeiro Bonifácio e o alfaiate Jeroboão, que também iam na mesma direção. Eram dois espertalhões, o barbeiro e o alfaiate, sempre prontos a passar a perna nos outros. E não seria Pedro Malasarte quem iria escapar da lábia deles.
Imaginem que nenhum dos dois levava farnel, embora a viagem fosse longa. Tratava-se de uma senhora caminhada! Já estava escurecendo e daí a pouco teriam de parar para passar a noite em algum lugar.
Acontece que a noite caiu antes que encontrassem casa ou hospedaria onde pudessem pedir pousada. O jeito foi se acomodarem da melhor maneira à beira da estrada. Aí o barbeiro disse:
- Ai, que meu estômago já está colado nas costas! Tem alguma coisa na sacola que traz no ombro, amigo Malasarte?
- Só um pãozinho que minha mãe me deu antes de eu sair de casa - respondeu nosso herói. - E um pouco de vinho.
- Pão e vinho? - intrometeu-se o alfaiate. - É o quanto basta para nossa missa. Vamos repartir isso!
Malasarte, porém, sabia que ainda teriam, na manhã seguinte, muito que andar - só chegariam à cidade por volta do meio-dia - e por isso respondeu:
- Meus bons amigos, tenho uma ideia melhor. Dizem que o sono é o melhor alimento. Estamos cansados, não estamos? Então vamos aproveitar e ferrar no sono agora mesmo. Amanhã de manhã, assim que acordarmos, repartimos o meu farnel e logo nos sentiremos bem dispostos para prosseguir a viagem.
Meio a contragosto, seu companheiros de viagem tiveram de concordar, mas cada um já pensando em como haveria de se apoderar do farnel de Malasarte enquanto este dormia.
Dito e feito. Trocaram boas noites, cada um virou para seu lado e, mal ouviram nosso herói ressonar, barbeiro e alfaiate trataram de espichar a mão para a sacola.
Só que, como não haviam combinado entre si, ficou um puxando de cada lado, com todas a força, e a sacola não se mexia. No escuro, começaram a ficar com medo: estaria aquela sacola encantada? Não saía do lugar, por mais que puxassem! E não era Pedro Malasarte quem a estava segurando, pois ele nem havia acordado com aquilo tudo.
Finalmente, no meio de um sonho, o dono da sacola passou o braço por cima dela e os dois malandros ficaram a noite inteira esperando que ele tirasse o braço para tentar novamente.
Já quase amanhecendo, com os olhos muito vermelhos, o barbeiro olhou para a cara do alfaiate:
- Amigo Jeroboão, estamos fritos se daqui a pouco tivermos de repartir por três o farnel deste pateta que está roncando aí no chão. Precisamos dar um jeito de ficar com a refeição só para nós.
- Bonifácio, meu caro - retrucou o alfaiate - pode deixar comigo. Tenho uma ideia. Tratemos de dormir um pouco. De manhã, vamos propor ao Malasarte o seguinte: quem contar o melhor sonho, fica com tudo, o pão e o vinho. É claro que se for um de nós, repartirá com o outro.
O barbeiro concordou e ambos trataram de dormir, pois, até então, com o estômago roncando, não haviam pregado olho. E como dormiram!
Ao acordar, com o sol nascendo, Pedro Malasarte deu com os dois ressonando alto, profundamente adormecidos. E disse para si mesmo:
- O sono é o melhor alimento. O negócio é deixá-los dormir. Quanto a mim, que estou acordado, vou tratar de comer, que a fome é grande.
E com muita satisfação devorou o seu pãozinho e o regou, depois, com o vinho que trazia.
Em seguida, como ainda era cedo, deitou-se novamente e acabou cochilando.
Naquela modorra, viu quando Bonifácio e Jeroboão despertaram e tiveram esta conversa:
- Como é, amigo Bonifácio? Sonhou alguma coisa que se aproveitasse? - perguntou o alfaiate.
- Puxa, se sonhei! - respondeu o barbeiro. - Imagine que eu estava no céu, fazendo a barba de todos os santos! Que felicidade. E você, Jeroboão?
- E eu, então? - retrucou o alfaiate. - Pois mal fechei os olhos me vi direitinho, mas no inferno, cara a cara com o Diabo. E quer saber do que mais? Ele queria uma roupa nova, bem vermelha! Estava tirando as medidas, quando acordei. Que cheiro de enxofre.
- Duvido que o pateta do Malasarte tenha sonhado alguma coisa que preste - disse o barbeiro. - Vamos tratar de acordá-lo e fazer a ele a nossa proposta!
E mais do que depressa deram duas ou três sacudidelas no companheiro, que continuava abraçado com sua sacola.
Fingindo que acordava de um sono profundo, Pedro Malasarte esfregou os olhos e com cara de tolo ouviu a proposta dos dois espertalhões. Quem contasse o melhor sonho comeria o farnel todo. Mas Malasarte perguntou, soltando um enorme bocejo:
- Farnel? Que farnel?
- Ora, esse aí que você carrega na sacola! - exclamaram Bonifácio e Jeroboão.
- Meus amigos, o farnel já era - disse Malasarte. - Acabei de comê-lo indagora! E chorando!
- Chorando? - repetiram os dois malandros, entre perplexos e desapontados.
- E como não haveria de chorar? - continuou Malasarte. - Pois sonhei que havia perdido meus pobres companheiros! Imaginem só que vocês dois haviam morrido. O meu bom amigo aqui, o barbeiro Bonifácio, uma alma pura, tinha sido levado para o céu, por um anjo, para fazer a barba de todos os santos. Como estava feliz! Já o meu ainda melhor amigo aqui, o alfaiate Jeroboão, que deve estar devendo alguma coisa a São Pedro, estava com dois olhos assim arregalados porque foi parar direitinho no inferno - e com a incumbência de fazer imediatamente uma roupa nova para o Diabo!
Bonifácio e Jeroboão se entreolharam, boquiabertos.
- Bem, meus amigos - prosseguiu Malasarte. - Eu nunca soube que alguém tivesse ido parar no céu ou no inferno e depois voltado para este mundo. Por isso, muito tranquilamente, ainda com lágrimas nos olhos, abri minha sacola e tratei de comer o meu pãozinho, regando-o depois com minha meia garrafa de vinho. Foi o jeito que achei de me consolar.
E notando a cara desapontada dos dois, concluiu:
- Mas que caras são essas? Então vocês escapam de ir desta para a melhor e não ficam alegres? Vamos cantar e dançar, minha gente!
Começou a cantar e a bater palmas, enquanto Bonifácio e Jeroboão, muito sem jeito, mas para disfarçar, ensaiavam dois ou três passos.
Depois, com a barriga roncando, prosseguiram a viagem. Malasarte ia lépido, na frente. Seus companheiros, trocando as pernas, nal podiam acompanhá-lo. Mas afinal chegaram, mais mortos do que vivos, à cidade.
(Do livro "As aventuras de Pedro Malasarte", de Sérgio Augusto Teixeira).
LINGUAGEM - Arguir
Além do sentido de fazer perguntas a aluno, o verbo tem muitos outros, encontráveis em qualquer dicionário. Precisamente a acepção tão corrente na linguagem escolar é que falta na memória dos léxicos. Só Francisco Fernandes a consignou, abonando-se com o seguinte exemplo de Rui Barbosa, tomado à sua tradução das "Lições de Coisas".
"Nesta fase do ensino, argua o mestre os alunos, com perguntas deste gênero".
Arguir também quer dizer acusar, no sentido de censurar. Constrói-se com "de".
No período de D. Silvério, anotado pelo consulente, significa, por igual, acusar, mas na acepção de revelar, denotar, inculcar. Diz assim:
"Minha presença nesta respeitável assembleia das letras pátrias argui em mim uma temeridade pouco explicável em meus anos..." (Aires da Mata Machado Filho)
Arguir é uma entre muitas palavras desconhecidas desta geração.