OCTOGÉSIMO OITAVO DIA
TEMPO - Sol pela manhã e nuvens.
HISTÓRIAS ANTIGAS
Um só socó
Aquém, muito aquém daquela serra que não dá pra ver daqui, começavam as margens plácidas da nação dos potiguares.
Hoje, o mangue engole tudo. Só quem anda por lá são são os chama-marés de corpo destamainho e patolas enormes acenando para a vazante. Bichos muito insignificantes que nunca entraram em livro nenhum.
Mas o mundo começava nas brancas areias do Potengi, pode perguntar a quem entende. Era ali onde o bravo Poti, quando encontrava um tempinho, ia brincar de cangapé com os amigos da taba. Claro que ele, o bravo guerreiro, quase não tinha tempo: vivia ocupadíssimo nas páginas alencarinas, matando goiamum a flechada, descangotando tabajara com a força do seu tacape e acompanhando, quem nem um tonto, o cara-pálida Martim. Como se não bastasse, mudou o nome para Felipe Camarão, morreu metido em briga de branco e, bem feito, terminou entrando na História do Brasil de Pedro Calmon.
Centenas de luas depois da vida, paixão e morte de Poti (exatamente duas mil, quatrocentas e doze luas), aquilo lá era o lugar que o caçador Cançado escolhia para matar socós. Nesse dia foi assim:
Ele fez pontaria num bando de socós, atirou no meio deles, enquanto pensava: um só socó pra três socós coçar, seu jogo de quebra língua preferido. Foi pena pra todo lado. Dois socós caíram estrebuchando, epiléticos, agonizantes. Dois outros patinaram na lama, tentando a decolagem, mas de repente ficaram mais pesados do que o ar, desajeitados como um avião pioneiro.
E o caçador vendo tudo e rindo, a espingarda fumegando na mão, sádico que só a peste, pois o desgraçado do socó não tinha serventia nenhuma. Era impossível depená-lo, o couro se despregava todo com um só puxão nas penas. E se ia pra água quente, que ajuda a tirar as penas de qualquer pássaro, parecia que o falecido socó se vingava. Empestava os ares com cheiro de enxofre, de bosta, de peixe ardido. Ninguém comia aquilo.
De repente, um rumor suspeito quebra a doce harmonia da festa. Melhor dizendo: o mato estalou como num filme americano. Cançado olhou pra trás e viu a índia gorda, os peitos ubérrimos, idade indefinida de índia. Foi como um raio fúlgido no seu peito lusitano: tesão à primeira vista, fulminante.
- Hosana! - ele gritou, desarmado, besta, o coração latejando. - Hosana!
A índia desembestou pelo mato, um pouco menos ágil do que as índias de Alencar, mesmo assim ligeira que só a peste. E lá vai o caçador atrás, laço na mão, pega não pega.
Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, seis quilômetros e meio de corrida, ele laçou a índia. Estavam bem perto do Rio Doce, filete de riacho que morre antes de chegar no mar de areias brancas dos antigos potiguares.
- Hosana! - disse ele, com palmo e meio de língua pra fora.
- Hosana! - ela repetiu, rindo, batendo no meio dos peitos generosos. (O dia das moscas - romance de Nei Leandro de Castro)
UPANEMÊS
Lavar o pescoço: tomar uma dose de cachaça.
SAÚDE
Mastruço - Contra doenças do peito,, bronquite, moléstias dos rins e do estômago; é diurético, é contra o raquitismo; dá ótima salada, tem boa aplicação nos casos de quedas e machucaduras.
(Dicas de Jaime Brüning)
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